A Quaresma é, para o cristianismo, o caminho que nos leva a celebrarmos o grande Mistério Pascal. Mistério, onde morte e glória manifestam o próprio Deus que salva todos os homens. Mergulhar neste Mistério é afirmar sempre que “o Mistério de Cristo e o mistério do ser humano são inseparáveis”, porque a vontade de salvar e de amar o ser humano é o alento divino que se renova ao longo de toda a história através da “missão do Filho, que vem do Pai e deve voltar a Ele, é selada pelo próprio Pai, que exalta o Filho no dia da Páscoa”. Deste modo, hoje, como em todos os tempos, o Senhor Jesus Cristo nunca deixou de demonstrar seu projeto de salvação, nem mesmo diante de todo mal que se levanta contra, nem “mesmo à custa de sua própria vida, abraça as pessoas e os povos e entrega-nos todos ao Pai, oferecendo-se a si mesmo em sacrifício de expiação”. Portanto, o tempo da Quaresma, oferece-nos uma providencial ocasião para aprofundarmos, através de uma caminhada de conversão espiritual, a suprema realidade do Amor de Deus.
No caminho de conversão espiritual, somos convidados a participar de forma proveitosa do retiro espiritual anual, onde, “no caminho, contemplam-se novos horizontes que fazem refletirmos sobre os limites da própria existência e sobre a imensidão que o ser humano tem dentro e fora de si, preparando-o para ir em busca daquilo que o coração anseia realmente”. Um caminho que nos propícia a nos determos na plena revelação do Amor através do Mistério da Cruz, que simbolicamente representa o Amor de Deus chegando à consumação na dor. Esse é o auge de todo o Amor, amar o outro até a morte e para além da morte. E junto à cruz sentimos que o nosso amor a Deus não será sem sofrimento, todavia, em nossa dor, Deus se aproxima, toca-nos, abraça-nos, manifesta sua misericórdia, pois o Amor não encontra limite no sofrimento, mas assume um caráter definitivo e essencial na busca de Deus.
Nesta perspectiva, a Santa Mãe Igreja nos propõe durante este tempo quaresmal, três exercícios espirituais clássicos, que nos ajudam no caminho de renovação da vida interior, que são: a oração, o jejum e a esmola. Tais exercícios têm como finalidade o “esvaziamento interior de toda espécie de maldade e a enchê-lo do Amor de Deus e do próximo”, isto é, numa renovação permanente da conversão da pessoa em direção a Deus. Caso isso aconteça, seu fruto se dará na mudança de pensamento, da vida, da atitude, capaz de ser sentida por todos e, ao mesmo tempo, projetando-se para uma realidade nova, no engajamento e seguimento das coisas divinas e, ao mesmo tempo em que permanece, como sinal de santidade. Portanto, ao praticarmos esses exercícios, “somos convidados a um treinamento espiritual, por meio do empenho pessoal de adesão a Deus para sermos testemunhas de seu Amor”. Todavia, inflamado deste desejo de conversão espiritual, permaneceremos sempre voltados ao anúncio da mensagem cristão.
Na tradicional mensagem quaresmal, este ano, o Sumo Pontífice Bento XVI, nos propõe o tema da Justiça de Deus. Justiça que se traduz por uma existência em plenitude no único e perfeito Amor que só Deus pode comunicar, de algo mais íntimo que nos é concedido mediante a fé em Jesus Cristo. Viver e praticar a Justiça de Deus é realizar o bem plenamente, é aprimorar o relacionamento com o próximo numa total retribuição ao que recebemos de Deus, é ouvir a aprofundar a libertação do coração. Aceitar esta Justiça sem fim é vivenciar e contemplar “o gesto de Amor de Deus que se abre até ao extremo, até fazer passar em si a maldição que toca ao homem, para lhe transmitir em troca a benção que toca a Deus”. Diante da triste constatação do pecado, converter-se é sair da ilusão da autoconfiança exagerada para descobrir e chegar até Deus. Um “ato de humildade que permite ao ser humano descer até os abismos da fragilidade, da precariedade e de todas as coisas que são consequência do pecado original” para ir ao encontro do Amor Supremo.
Como em poucas linhas não esgotamos um assunto tão vasto e cheio de riqueza divina, concluímos afirmando que a Quaresma é um caminho verdadeiramente profundo e espiritual para aprofundar e refletir, mediante renovação espiritual, o grande Amor de Deus por nós. Amor que é conhecido pela entrada de Jesus Cristo dentro da realidade humana, onde, com seu projeto de amor a salvação para todos, nos conduz a penetrar no seu Mistério Celeste. Um caminho que atinge seu ponto sublime com a Solenidade do Tríduo Pascal, no qual este ano celebramos a Justiça de Deus, avivada pelo Amor, pela Graça e pela Salvação. Sendo assim, que este tempo quaresmal seja para todos, tempo de uma sincera conversão pessoal e de um profundo desejo do conhecimento do Mistério Supremos do amor de Deus. Amém.