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Fr. Sílvio João - (email): Frei Silvio João Santos do Carmo atualmente reside no Convento do Carmo em São Luís. É assessor admininistrativo na Cúria provincial e responsável pelo documentação do patrimônio móvel e imóvel da Província.

06/03/2010
Quaresma: a suprema realidade do Amor de Deus


A Quaresma é, para o cristianismo, o caminho que nos leva a celebrarmos o grande Mistério Pascal[1]. Mistério, onde morte e glória manifestam o próprio Deus que salva todos os homens[2]. Mergulhar neste Mistério é afirmar sempre que “o Mistério de Cristo e o mistério do ser humano são inseparáveis”, porque a vontade de salvar e de amar o ser humano é o alento divino que se renova ao longo de toda a história através da “missão do Filho, que vem do Pai e deve voltar a Ele, é selada pelo próprio Pai, que exalta o Filho no dia da Páscoa[3]. Deste modo, hoje, como em todos os tempos, o Senhor Jesus Cristo nunca deixou de demonstrar seu projeto de salvação, nem mesmo diante de todo mal que se levanta contra, nem “mesmo à custa de sua própria vida, abraça as pessoas e os povos e entrega-nos todos ao Pai, oferecendo-se a si mesmo em sacrifício de expiação[4]. Portanto, o tempo da Quaresma, oferece-nos uma providencial ocasião para aprofundarmos, através de uma caminhada de conversão espiritual, a suprema realidade do Amor de Deus.


No caminho de conversão espiritual, somos convidados a participar de forma proveitosa do retiro espiritual anual, onde, “no caminho, contemplam-se novos horizontes que fazem refletirmos sobre os limites da própria existência e sobre a imensidão que o ser humano tem dentro e fora de si, preparando-o para ir em busca daquilo que o coração anseia realmente”[5]. Um caminho que nos propícia a nos determos na plena revelação do Amor através do Mistério da Cruz, que simbolicamente representa o Amor de Deus chegando à consumação na dor. Esse é o auge de todo o Amor, amar o outro até a morte e para além da morte. E junto à cruz sentimos que o nosso amor a Deus não será sem sofrimento, todavia, em nossa dor, Deus se aproxima, toca-nos, abraça-nos, manifesta sua misericórdia, pois o Amor não encontra limite no sofrimento[6], mas assume um caráter definitivo e essencial na busca de Deus.


Nesta perspectiva, a Santa Mãe Igreja nos propõe durante este tempo quaresmal, três exercícios espirituais clássicos, que nos ajudam no caminho de renovação da vida interior, que são: a oração, o jejum e a esmola. Tais exercícios têm como finalidade o “esvaziamento interior de toda espécie de maldade e a enchê-lo do Amor de Deus e do próximo[7], isto é, numa renovação permanente da conversão da pessoa em direção a Deus. Caso isso aconteça, seu fruto se dará na mudança de pensamento, da vida, da atitude, capaz de ser sentida por todos e, ao mesmo tempo, projetando-se para uma realidade nova, no engajamento e seguimento das coisas divinas e, ao mesmo tempo em que permanece, como sinal de santidade. Portanto, ao praticarmos esses exercícios, “somos convidados a um treinamento espiritual, por meio do empenho pessoal de adesão a Deus para sermos testemunhas de seu Amor”[8]. Todavia, inflamado deste desejo de conversão espiritual, permaneceremos sempre voltados ao anúncio da mensagem cristão.


Na tradicional mensagem quaresmal, este ano, o Sumo Pontífice Bento XVI, nos propõe o tema da Justiça de Deus. Justiça que se traduz por uma existência em plenitude no único e perfeito Amor que só Deus pode comunicar, de algo mais íntimo que nos é concedido mediante a fé em Jesus Cristo. Viver e praticar a Justiça de Deus é realizar o bem plenamente, é aprimorar o relacionamento com o próximo numa total retribuição ao que recebemos de Deus, é ouvir a aprofundar a libertação do coração. Aceitar esta Justiça sem fim é vivenciar e contemplar “o gesto de Amor de Deus que se abre até ao extremo, até fazer passar em si a maldição que toca ao homem, para lhe transmitir em troca a benção que toca a Deus”[9]. Diante da triste constatação do pecado, converter-se é sair da ilusão da autoconfiança exagerada para descobrir e chegar até Deus. Um “ato  de humildade que permite ao ser humano descer até os abismos da fragilidade, da precariedade e de todas as coisas que são consequência do pecado original”[10] para ir ao encontro do Amor Supremo.


Como em poucas linhas não esgotamos um assunto tão vasto e cheio de riqueza divina, concluímos afirmando que a Quaresma é um caminho verdadeiramente profundo e espiritual para aprofundar e refletir, mediante renovação espiritual, o grande Amor de Deus por nós. Amor que é conhecido pela entrada de Jesus Cristo dentro da realidade humana, onde, com seu projeto de amor a salvação para todos, nos conduz a penetrar no seu Mistério Celeste. Um caminho que atinge seu ponto sublime com a Solenidade do Tríduo Pascal, no qual este ano celebramos a Justiça de Deus, avivada pelo Amor, pela Graça e pela Salvação. Sendo assim, que este tempo quaresmal seja para todos, tempo de uma sincera conversão pessoal e de um profundo desejo do conhecimento do Mistério Supremos do amor de Deus. Amém.






[1]  Cf. Lumem Gentum,



[2]  Cf. SALVADOR, Federico Ruiz, Compêndio de Teologia Espiritual, Loyola, 1996, p. 104



[3]  Cf. Dicionário de Espritualidade, Paulinas, 1993, p. 763



[4]  Cf. BENTO XVI, Mensagem de Quaresma, 2006



[5]  Cf. BENTO XVI, Mensagem na Abertura do Ano Santo Compostelano de 2010, em 19/12/2009



[6]  Cf. GRÜN Anselm, Morar na casa do Amor, Loyola, 2006, pp. 36-49



[7]  Cf. Dicionário Franciscano, Vozes, 1999, p. 627



[8]  Cf. BENTO XVI, Mensagem da Quaresma, 2008



[9]  Cf. BENTO XVI, Mensagem da Quaresma, 2010



[10] Cf. RUPNIK, Marko Ivan, À Mesa de Betânia, Paulinas, 2007, p. 17



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