22 de Dezembro de 2009Circular nº 20Protocolo: 152/09
Queridos coirmãos,
O Senhor lhes dê a Paz!
“CONSTRUIR O FUTURO SOBRE O PRESENTE”
Chegamos ao final de mais um ano e as janelas e portas do ano de 2010 já vão se abrindo à nossa frente. É tempo de olharmos em direção ao futuro e, ao mesmo tempo, de avaliarmos o que temos realizado ao longo deste ano que termina. Não devemos esquecer que tudo o que conseguimos implantar até o presente momento, fizemo-lo com o intuito de que venha a servir de trampolim para o futuro, quer na dimensão pessoal e individual, quer na perspectiva de avanço e crescimento de toda a Província. Afinal das contas, se é justo e sábio garantirmos o amadurecimento de nossa pessoa, é ainda mais obrigação nos fortalecermos na consciência de nossa pertença àquele único organismo animado pelo Espírito que é a Província Capuchinha Nossa Senhora do Carmo.
Ao refletirmos sobre o ano que se conclui e ao avaliarmos nossa vida e nossas práticas, sem dúvida alguma vamos registrar nos dois âmbitos acima acenados, pessoal e estrutural, momentos de alegrias e tristezas e também momentos de vitórias e derrotas, pois assim é a vida concreta, assim é o caminho que realisticamente percorremos.
Sempre, em nosso pensar, escolher e agir nos deparamos com desafios de cuja correta resposta vai depender a orientação futura. Amanhã só poderemos colher o que hoje tivermos semeado. Não adianta esperarmos algo positivo em nossas vidas e naquela da Província, se não cuidarmos com diligência em edificar sobre o momento presente.
Neste ano ocorreram acontecimentos importantes e significativos que marcaram nossa caminhada e com certeza nortearão seu prosseguimento: a visita canônica do Ministro Geral; o envio de Frei Antonio Martins Barros e Frei Antonio Carlos Gomes Pereira à Missão de Cuba; a solene celebração dos dez anos de criação da Província; a profissão perpétua de três coirmãos; os encontros regionais, que tiveram como tema de reflexão o terceiro capítulo das nossas Constituições sobre a oração; o encontro do Ministro Provincial com os Guardiães e no final do ano a Ordenação Presbiteral de cinco coirmãos: Frei Francisco Ezequiel Páscoa da Silva, Frei Pedro Canosa Monteiro, Frei Antonio Gildo Pereira de Sousa, Frei Joscelino Clemente de Oliveira e Frei Wanderlan Silva Carvalho. Na entrada do novo ano enviaremos outros dois irmãos para a missão de Cuba: Frei Joscelino Clemente de Oliveira e Frei Messias Sousa Neto. Mais adiante participaremos daquele momento forte de espiritualidade que é o Retiro anual, que nos reunirá em Castanhal do dia 8 até o dia 12 de fevereiro. Ainda no próximo ano haverá, de 9 de maio a 6 de junho, a visita canônica do Definidor Geral Frei José Gislon à Província e em novembro, de 08 a 12 a Assembléia Provincial sobre a Formação. Em preparação a Assembléia Provincial sobre a Formação acontecerá do dia 15 a 19 de fevereiro em Belém o IV Congresso dos Formandos. Além desses eventos que nos envolvem como Província, há inúmeros outros, pequenos e grandes, que experimentamos no dia a dia nas nossas fraternidades. Participar de tudo isso ativamente, com inteligência e coração, é o que eu chamo de “construir o futuro a partir do presente”.
Estamos envolvidos nestes dias no clima do Natal e do Ano Novo e nesta oportunidade gostaria de estender a todos vocês, irmãos, minhas felicitações natalinas com os votos de abençoado Ano Novo; apresentar-lhes a lista das novas nomeações e o nosso calendário para o ano de 2010; tecer duas breves considerações que, ao meu ver, são fundamentais para podermos viver bem o presente e colocarmos alicerces sólidos em vista do futuro. Refiro-me à nossa ação pastoral e à nossa resposta ao mistério do Natal do Senhor.
“Jesus, ao ver a multidão, sentiu compaixão dela, porque estavam humilhados e abatidos como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36). Nesta expressão é realçado o motivo que levou Jesus a escolher doze apóstolos e enviá-los a pregar, curar e libertar: “Jesus viu a multidão e sentiu compaixão”.
Nossa condição de consagrados, enquanto religiosos e presbíteros, torna-nos servidores que devem trabalhar não somente pelo bem da Igreja e pelo nosso próprio crescimento, mas também pelo bem dos outros, do mundo, de todos aqueles que partilham conosco a mesma missão testemunhal e apostólica e, de modo especial, pelos desanimados, desesperançados e oprimidos. O Concílio Vaticano II dedicou um documento inteiro, Gaudium et Spes, para comprovar como a Igreja existe “para o mundo”. O texto começa com as famosas palavras: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de nosso tempo, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são por sua vez as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo” (GS, 1).
“Ao ver a multidão, sentiu compaixão dela, porque estavam humilhados e abatidos como ovelhas sem pastor”. (Mt 9,36). Toda pessoa consagrada deve dar testemunho ao mundo de que ela é depositária e continuadora da compaixão de Cristo. Ela deve dar continuidade à missão do Mestre, que afirmava: “Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos darei descanso...”(Mt, 11,28). Todos os dias nos deparamos com uma multidão de pessoas que vêm a nós ou estão próximas de nós. Talvez muitas delas não pareçam tão “cansadas e abatidas” como as do tempo de Jesus. Mas não nos deixemos enganar: por trás de uma fachada de opulência, nas ruas e nas casas das cidades dos homens há muito cansaço, solidão e até desespero.
Raniero Cantalamessa em sua reflexão aos participantes do Capítulo Internacional das Esteiras disse: “Nós católicos, pelo nosso passado, estamos mais preparados para sermos “pastores” que “pescadores” de homens, isto é, estamos mais preparados a pastorear as pessoas que são fiéis à Igreja, que a trazer para ela novas pessoas, ou a pescar de novo as que se afastaram “(Capítulo das Esteiras no VIII Centenário da aprovação da Regra de São Francisco, 15.04.2009). Temos, irmãos, um grande desafio pela frente em nossa ação pastoral: somos pastores e, enquanto tais, no final de um ano de trabalho devemos nos questionar se nos contentamos de como as coisas estão indo ou se temos consciência de que os afastados superam infinitamente os que participam e se nos preocupamos com esta situação. Será que não teria chegado a hora de darmos um passo à frente, levando em consideração a grande multidão “cansada e abatida” que vive longe da vida eclesial de nossas comunidades?
A segunda reflexão é sobre a nossa resposta ao mistério do Natal. Não podemos esquecer que o Natal é a definitiva e suprema manifestação daquilo que a Escritura chama de “filantropia de Deus”, ou seja, seu infinito e terno amor pelos homens: “Manifestou-se a bondade de Deus e seu amor pelos homens” (Tt 3, 4).
Tenho certeza que cada irmão se esforçou para preparar sua comunidade paroquial para que viva com intensidade as festas do Natal, proporcionando-lhe a riqueza da Palavra de Deus na liturgia e através de reflexões sobre temas de reconciliação e de paz. É louvável a preocupação que cada irmão expressa pelos fiéis confiados aos seus cuidados pastorais, mas não podemos esquecer também os problemas que como frades vivenciamos no interior de nossas fraternidades. É fácil falarmos bonito para os de fora; difícil é vivermos o que pregamos no contexto cotidiano de nossas casas. É com grande tristeza que constato como nas nossas fraternidades muitas vezes se instaura um clima por nada evangélico quanto ao relacionamento fraterno. Vive-se na desconfiança recíproca, na competição invejosa, no mutismo com os coirmãos e na fofoca com os de fora, no desejo surdo e na alegria inconfessada que os irmãos fracassem nos seus planos e trabalhos.
O convite que quero fazer a cada irmão, especialmente neste tempo, é que procure dar uma resposta concreta ao mistério do Natal na vida interna à sua fraternidade. Esta boa vontade deve expressar-se imitando o modo de agir de Deus. Imitar o mistério que celebramos significa abandonar toda má lembrança de ofensas recebidas; apagar do coração qualquer ressentimento e amargura, ainda que justificados; não acolher deliberadamente pensamentos de hostilidade contra qualquer que seja: contra os de perto e os de longe, contra fracos e fortes, contra pequenos e grandes da terra; enfim, não conceber nada de maldoso contra criatura alguma deste mundo. Isso devemos fazer para honrarmos o Natal do Senhor, pois Deus não guardou rancor, não olhou para a ofensa recebida, não esperou que o outro desse o primeiro passo até Ele. Alguns dias atrás, enquanto folheava um livro, chamou-me muito a atenção o seguinte pensamento: “A mágoa é um espinho que cravamos em nosso coração, difícil de ser tirado!”.
Queridos irmãos, estou convencido que seja necessário repensarmos com honestidade, clareza e coragem a qualidade de nossas relações de irmãos nas nossas casas e proponho que neste Natal cada um ouse dar o primeiro passo em direção ao irmão para o abraço cordial da reconciliação e da vida nova. É Natal, é Ano Novo, é tempo de recomeçar! Nunca é tarde demais para dar o primeiro passo, lembrados de que devemos “construir o futuro sobre o presente”.
É com estas reflexões sobre a caminhada de nossa atual situação e sem esquecer sua projeção para o futuro, que desejo a cada um dos filhos desta amada Província, a todas as fraternidades que a compõem e a todas as nossas comunidades paroquiais, um Feliz Natal e Próspero Ano Novo. Desejo paz, saúde e, principalmente, um coração contente e contemplativo, para que todos possamos conviver na mesma simplicidade e alegria com que Deus veio nascer e viver entre nós para nos tornar mais humanos, mais irmãos, filhos seus e assim nos salvar.
Frei José Rodrigues de Araújo
22 de Dezembro de 2009
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