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Prot.  137/07

  

CARTA CIRCULAR n. 08

 

Consciência da partilha e transparência econômica

 

         Caríssimos irmãos, já em preparação para a nossa próxima Assembléia Provincial, a se realizar em dezembro, gostaria de começar a introduzir uma reflexão que será retomada e aprofundada naquela oportunidade, pois é um tema que, por constituir um valor essencial para a nossa forma de vida, merece estar continuamente presente em nossa consciência.

Nosso Seráfico Pai São Francisco compreendeu, na contemplação do presépio, o sentido profundo e concreto da encarnação do Verbo. O Filho de Deus, embora sendo o Senhor do mundo, fez-se o último e servo de todos para ganhar a todos. Seu nascimento deixou claro seu destino. Ele nasceu rejeitado pelo mundo e foi acolhido somente pela santa pobreza.

         Francisco, que assumira como regra de vida o Santo Evangelho, no seu caminho de configuração a Cristo, não poderia ter escolhido outra esposa a não ser aquela mesma abraçada pelo Esposo das núpcias eternas. Por isso foi justamente a dama pobreza que ele escolheu como esposa, sendo ela a mais bela entre todas as damas. E essa união místico-espiritual foi a mais rica herança que nos deixou o pobrezinho de Assis.

         A tradição sempre reconheceu o realce dado pela vida franciscana à pobreza. E mais: “Dentro do movimento franciscano os capuchinhos colocaram em maior evidência a austera simplicidade no modo de viver a pobreza e a inserção no meio do povo no praticar a minoridade” (6 CPO, 5). Todavia, temos que reconhecer honestamente, que diante do mundo, economicamente globalizado, viver essa mística, que nos distingue de modo muito próprio, se torna a cada dia uma realidade mais desafiadora.

         Por decreto pontifício de Paulo VI (1970) não somos mais vinculados às decisões econômicas de Francisco e de seus primeiros companheiros. Isso, porém, deve ser compreendido como desafio para uma maior responsabilidade de nossa parte em vivermos a pobreza num mundo regido hoje por uma lógica de economia de mercado, desumana, que ignora totalmente os valores evangélicos que assumimos como “Regra de Vida”.

         Faz-se necessário, portanto, que reflitamos sobre nossa vida de pobreza. Embora ultrapasse a questão puramente econômica esta dimensão se põe inevitavelmente em nosso atual contexto como realidade que exige séria, profunda e urgente reflexão. Devemos debater e nos confrontar para assumirmos com renovado ardor essa mística que nos caracteriza como Frades Menores que vêem no Cristo pobre o único bem necessário. Foi assim que viveu Francisco de Assis, o qual “encarnou a radicalidade evangélica e destacou com o seu estilo inconfundível que viver e anunciar o evangelho significa nudus nudum Christum sequi” (6 CPO, 11). E Francisco não deve ser lembrado como homem do passado, mas apresentado, pelo testemunho de cada irmão, como autêntica proposta para o tempo presente.

         Seremos homens de autêntico testemunho de pobreza para o mundo, se formos pobres de verdade em cada fraternidade da Província. A fraternidade é o primeiro lugar onde devemos viver a pobreza, mediante a partilha dos dons, o trabalho comum, a administração fiel dos bens. Pecamos gravemente quando não sabemos administrar aquilo que não é nosso ou utilizamos de forma vil aquilo que é de todos em benefício próprio. Lembremos o que diz o Senhor ao administrador infiel: “Lançai-o fora nas trevas. Ali haverá choro e ranger de dentes” (Mt 25, 30).

         É preciso formar viva consciência de que a fraternidade é o lugar fundamental da comunhão e da solidariedade. Esta “não consiste em dar coisas aos outros, mas é interdependência recíproca e expressão de fraternidade” (6 CPO, 22). Paróquias e conventos não são empresas. Os párocos e os guardiães são administradores da “multiforme graça de Deus” (1 Pd 4, 10) a serviço dos irmãos e do povo de Deus. Sem reta consciência do dever da partilha, o frade, longe de dar evidente testemunho de pobreza, dará um contra-testemunho e, portanto, será motivo de escândalo à Igreja e ao mundo em relação àquilo que ele mesmo havia pedido para viver: a santa pobreza.

         A administração deve sempre ter em vista o bem de todos. O ter tudo em comum não é apenas uma exigência franciscana, mas ela é franciscana porque é fundada no evangelho e na vida das primeiras comunidades cristãs: “Os cristãos tinham tudo em comum” (At 2, 44). Lembremos o que diz o Sexto CPO: “A vida fraterna exige transparência, também nas administrações locais, provinciais e da Ordem. Esta transparência se inicia com o frade individualmente, continua na fraternidade local e se completa na Circunscrição à qual pertence a fraternidade” (n. 30).

         A consciência da partilha e a transparência econômica são duas atitudes fundamentais e urgentes para se oferecer um mais apurado testemunho da vida de pobreza. É verdadeiramente inadmissível utilizar o nome dos pobres para administrar grandes quantias de dinheiro, sem antes observar as normas que regem a vida econômica da Província e da Ordem. Pecado, não menor, comete aquele que utiliza os bens da Província ou da Igreja para ajudar leigos às ocultas e, portanto, de forma duvidosa, alimentando amizades suspeitas e com isso legitimando um pecado com outro. Lembremo-nos daquilo que professamos, isto é, não termos nada de próprio. O que administramos é de todos porque não é de ninguém. Somos administradores e devemos administrar segundo a justiça de Deus e as orientações da Ordem e da Província.

         A transparência econômica e a partilha dos bens nos aproximarão mais ainda daquilo que viveram o nosso seráfico pai Francisco e seus primeiros companheiros. Esforcemos-nos, pois, por buscar as coisas sublimes, por viver a pobreza evangélica com radical entrega a fim de sermos no mundo um sinal de esperança para a realização de uma vida de comunhão e de amor fraterno que passa necessariamente pelo total desprendimento de tudo e de nós mesmos.

         Com esta carta quero convocar todos os frades da Província Nossa Senhora do Carmo para a II Assembléia Provincial a se realizar entre os dias 10 e 13 de dezembro do corrente ano no Convento Nossa Senhora Auxiliadora em Belém do Pará, a qual terá como tema: “A vida de Pobreza: por uma administração fraterna e transparente”. A mesma será assessorada por Frei José Gislon, Definidor Geral para o Brasil e por Frei Eduardo Rubiano, Ecônomo Geral.

           Todos os irmãos procurem participar desse momento fundamental, durante o qual estudaremos também o Estatuto Econômico da Província. Os irmãos que por motivos justos preverem não poder participar, deverão comunicar ao Ministro Provincial, por escrito e com antecedência, os reais motivos que justificam sua ausência.

         Celebrando o dia de São Francisco, aproveito esta feliz oportunidade para me congratular com todos os irmãos da Província. Celebremos com ardor, com entusiasmo e com muita devoção esta grande festa. Em comunhão com todos os irmãos e na alegria que nos une mais ainda neste dia, imploro de Deus, a todos, a mesma bênção que nosso Seráfico Pai pedia ao Senhor a cada Irmão Menor.

         Que o Senhor vos abençoe e vos guarde. O Senhor vos mostre sua face e tenha misericórdia de vós. O Senhor volva para vós seu rosto e vos dê a paz. O Senhor vos abençoe. 

 

            São Luís, 04 de outubro de 2007

         Solenidade de São Francisco de Assis  

 

 Frei José Rodrigues de Araújo OFM Cap

                                               Ministro Provincial


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