Início Fale Conosco
Santos Capuchinhos
Quem Somos
Textos
 

 

                II ASSEMBLÉIA PROVINCIAL

                                                    Província Nossa Senhora do Carmo.

              Irmãos, é importante que não façamos esta reflexão sobre economia, separada da nossa vida como se fosse um tema de especialistas, mas integrada no cotidiano da fraternidade e, no contexto de toda a Ordem, aproveitando o trabalho das Constituições e dos Estatutos, nos quais todos nós estamos empenhados. É mister, portanto, que a vossa Província o acolha e o faça seu, conforme o pedido da CCB com o Definitório Geral, no passado mês de novembro em Manaus.

 O Capítulo Geral de 2006 considerou de importância vital para a Ordem, as quatro propostas abaixo relacionadas e, é salutar que as tenhamos presentes para compreender nossa presença aqui e nos sentirmos em comunhão com toda a Ordem.

                        PROPOSTAS DO CAPÍTULO GERAL

 Primeira Proposição: “Placet ao Capítulo pedir ao Ministro Geral e a seu Definitório, e a todos os Ministros, dar a conhecer a todos os irmãos, a partir da formação inicial o espírito e as exigências da economia fraterna conforme a orientação do VI e do VII CPO e dos últimos Documentos da Ordem”.

 Compete à Província acreditar e levar a diante esta proposta formativa com todos os irmãos, motivar e organizar encontros que os considere necessários. Formação inicial e permanente, por grupos: ecônomos, responsáveis de obras sociais, instituições e guardiães. É necessário e urgente insistir neste aspecto da formação. Trata-se de uma prioridade, necessária para a renovação dos irmãos, das fraternidades e da Província. Esta Assembléia Provincial é nossa resposta à primeira proposição do Capítulo Geral. Algumas Províncias e Conferências já deram os primeiros passos; e agora vossa Província dá um grande passo para tornar realidade essa proposição. Parabéns irmãos, por levardes a sério as decisões capitulares.

 O Capítulo insistiu no “espírito e nas exigências da Economia fraterna”, dirigido “a todos os irmãos, a partir da formação inicial”. Esta quer ser uma oportunidade especial para que os irmãos revejam e estudem as novas linhas e opções da Província. Essa tarefa não se limita só aos ecônomos; pertence a todos os irmãos da Província, incluídos, explicitamente, os irmãos em formação inicial.

 Fica pendente a formação no “espírito e nas exigências da Economia fraterna” dos formandos, e deve ser o segundo passo, porém de grande importância, assim o considerou o Capítulo Geral. É verdade que aqui está uma representação dos irmãos pós-noviços, mas, por favor, falem de nossa economia com os formandos.

 Segunda proposição: O Capítulo Geral “solicitou ao Ministro Geral e ao seu Definitório, fazer adequadamente, uma análise das necessidades financeiras, para sustentar no futuro, as diversas instituições culturais e formativas dependentes do Ministro Geral”.

 Eis as seguintes instituições culturais que dependem do Ministro Geral e são muito importantes para a vida da Ordem: Instituto Franciscano de Espiritualidade, Instituto Histórico, Biblioteca Central, Arquivo Geral, Museu, as revistas Laurentianum e Collectanea Franciscana, o trabalho do Lexicon, e as instituições formativas: Colégio Internacional São Lourenço de Bríndisi, casa de formação permanente em Frascati e a casa em Jerusalém. O futuro destas instituições é preocupante, pois, a Ordem não dispõe de recursos econômicos suficientes para mantê-las funcionando.

 Essa realidade foi vista e analisada pelo Capítulo Geral; por isso, pediu que se estudasse a maneira de assegurar seu funcionamento. O Ministro Geral nomeou uma comissão para estudar as diversas propostas que deverão ser apresentadas ao Ministro Geral e seu Definitório. Esta comissão já se reuniu nos dias 28 e 29 de setembro na Cúria Geral.

 Terceira Proposição: Que “no próximo Capítulo Ordinário de 2012, seja apresentado o relatório econômico dos anos 2006 a 2011”.

 Aparentemente esta proposição está dirigida exclusivamente à Cúria Geral, intimada a apresentar o seu relatório econômico ao próximo Capítulo Geral, porém, trata-se de uma exortação extensiva a todos os relatórios econômicos a serem apresentados aos capítulos locais e provinciais, tendo um modelo adequado segundo as circunstâncias. Pede-se um modelo inspirador.

 Os relatórios econômicos aos capítulos provinciais devem ser claros, e apresentar a vida econômica da Província não só no final do triênio, como um todo, mas de cada ano separadamente, oferecendo aos irmãos capitulares uma visão panorâmica da economia provincial, pois, em muitos capítulos províncias o relatório econômico deixa muito a desejar, seja pela falta de clareza ou pela escassa informação. O capítulo, melhor momento em que os irmãos se reúnem, tendo a precisão dos dados, não só aprovem a gestão econômica, mas que também analisem e decidam linhas de ação em matéria de pobreza e solidariedade.

 Quarta Proposição: “Distinguir claramente o relatório econômico da Fundação São Francisco de Assis, do relatório econômico da Cúria Geral”.

 A Fundação São Francisco de Assis foi criada como organismo independente da Ordem, com personalidade jurídica própria para administrar os fundos destinados para a manutenção das nossas missões no mundo inteiro.

 Esta última proposta do Capítulo Geral está relacionada com a anterior, isto é, trata-se de uma proposta direcionada ao Economato Geral, porém, não deixa de ser ao mesmo tempo uma excelente indicação para todos os relatórios econômicos aos Capítulos.

 Os relatórios econômicos devem ser claros e precisos: informar sobre o capital da fraternidade e da Província e, como e onde se movimenta. O Capítulo deve ser informado sobre todos os fundos e “fundinhos” que os irmãos movimentam; informar não somente sobre o dinheiro da Província que passa diretamente pelo Economato Provincial, mas também os investimentos de Colégios, Obras Sociais, Secretariados de Missões, Paróquias e outros.

 Na Ordem existem Províncias que são muito pobres, onde o provincial tem que ir às distintas fraternidades pedindo colaboração, como se estivesse pedindo esmolas dentro de sua própria casa, porém, por outro lado, existem irmãos gerindo investimentos que ninguém conhece e nem sabe da sua existência e, muitas vezes têm mais dinheiro do que toda a Província. E ademais, esse dinheiro é administrado exclusivamente por irmãos que não prestam contas a ninguém. Isso não pode mais continuar assim; ninguém é proprietário de nenhuma obra, nenhuma instituição, nenhum cargo ou ofício. Tudo é da Província e, como tal, os irmãos devem saber o que existe e como se administra.

O economato provincial é encarregado de criar, organizar, administrar e regulamentar investimentos com determinação específica e, se deve respeitar tais investimentos e sua finalidade. Sucede que, em algumas Províncias, por exemplo, se determina fazer investimentos para a saúde, para a formação, para as missões ou obras sociais; trabalha-se nesta linha, porém mais adiante chega um provincial novo que quer trocar de carro e como não tem dinheiro no economato, transferem recursos do investimento que era para a saúde, para a compra do carro novo.

 Se quisermos, poderemos construir uma longa lista de casos semelhantes, porém é preciso dizer que jamais podemos fazer isso. Os investimentos são criados com uma finalidade específica e, por isso, deve ser respeitada; no mínimo se pode fazer um empréstimo, porém, o dinheiro deve ser reembolsado completamente.

 A economia de uma Província deve levar em conta a solidariedade econômica e fazer um grande esforço para alimentá-la com generosidade, não com migalhas que caem da mesa do senhor, mas com a generosidade da viúva, que dá daquilo que lhe falta. A solidariedade é o termômetro medidor da nossa pertença à Ordem.

 Quando a economia de uma Província é fraterna, podemos afirmar com segurança que ela cria e alimenta laços de fraternidade; porém quando uma economia é independente cria divisões e alimenta desigualdades entre os irmãos, luta pelo poder, desejos de manter-se num determinado cargo porque ali tem dinheiro. Assim, vive-se bem em umas fraternidades, enquanto que em outras, se vive com as ajudas da economia provincial. Uma economia sem comunhão divide os irmãos e se converte em cenário de luta e de poder.

 Esta proposta nos exorta a sermos generosos com a solidariedade econômica da Ordem. Somos uma família presente em mais de cem países, e sabe-se que destes, uns 20% têm bons recursos econômicos, uns 30% com aceitáveis recursos econômicos e quase 50% de baixíssimos recursos econômicos. E como família que somos necessitamos manter a comunhão de vida, que inclui os recursos econômicos e uma autêntica economia fraterna.

 Muitas províncias criaram grandes obras sociais que expressam um vivo exemplo de solicitude para com os necessitados. A solidariedade da Ordem recolhe e distribui atualmente uns sete milhões de dólares anualmente, o que permite atender a muitos dos nossos irmãos que vivem em países mais pobres, no meio de conflitos e de guerras, oferecendo-lhes meios para a evangelização e para partilhar com tantos necessitados. Por isso, devemos ler essa proposta capitular como um desafio a gerar estruturas provinciais sólidas e criativas, onde possa concentrar forças e recursos com uma única finalidade: a comunhão de vida. Hoje, a solidariedade está exigindo idéias novas e opções valiosas para poder socorrer tantos irmãos nossos dispersos por países mais pobres, para que cada fraternidade e cada província seja de fato escola de comunhão e centro de irmandade.

O que foi dito no parágrafo anterior, nos permite dizer algumas palavras sobre a AUSTERIDADE, virtude fundamental hoje em dia, e para nós Capuchinhos, característica peculiar da nossa opção de vida. O número 5 do VI CPO, diz: “No seio do movimento franciscano, os Capuchinhos colocaram, em maior evidência, a austera simplicidade na forma como viviam a pobreza no meio do povo. Tais valores, vividos em fraternidade, renovados e inculturados, possuem grande força de testemunho evangélico e de impulso à promoção dos mais necessitados”.

 Frei Lázaro Iriarte citando um cronista dizia: A pobreza não exigia dos Capuchinhos, somente escolher um modo de viver pobremente, mas também uma resposta profética à sociedade na qual havia de resplandecer a sobriedade, a pobreza e a austeridade. “A austeridade aterrorizava, a pobreza e a simplicidade contagiavam, e a devoção comovia aos que visitavam os lugares dos Capuchinhos” (Paulo de Foligno).

A austeridade é um elemento constitutivo do nosso ser capuchinho, e elemento fundamental de uma economia fraterna. A austeridade é mediadora entre a solidariedade e a eqüidade. A economia capuchinha, por mais organizada que seja, sem austeridade, em nada se distingue de uma excelente empresa bem administrada, que deixa um bom número de dividendos para distribuir entre seus sócios, porém, a economia capuchinha, austera, permite uma justa eqüidade além de deixar uma boa parte para a partilha fraterna.

 Porém, temos que nos perguntar: o que é realmente a austeridade? Hoje, podemos continuar falando de austeridade? Não é um discurso ultrapassado que não diz mais nada a ninguém e está longe da nossa vida cotidiana, que parece mais um discurso de noviciado, ou uma estranha característica dos capuchinhos de outras épocas? Hoje, não teríamos que falar mais de partilha, da promoção dos mais pobres, fomentar a autonomia, em vez de repetir esse discurso barroco sobre a austeridade, onde o capuchinho era acolhido com simpatia, não somente pelo povo simples, mas quiçá também por gente da sociedade, ao menos como forma decorativa?

 Não podemos ideologizar a austeridade e convertê-la em paradigma político, como ultimamente estão fazendo, políticos e governantes, falando de austeridade no gasto, plano de austeridade, políticas de austeridade, pressuposto austero. Basta ler um jornal para encontrarmos repetidas vezes essa palavra, referindo-se sempre ao mesmo: redução de gastos e corte de pessoal. Para nós, capuchinhos, a austeridade não tem conotação administrativa, apenas uma opção de vida, uma característica do nosso ser capuchinho, com conseqüências econômicas.

 A austeridade tampouco é uma virtude da pessoa individualmente considerada, mas da fraternidade; não é virtude de um simples frade, mas uma opção ou característica da fraternidade, melhor ainda, a identidade da Província.

 A austeridade não é só a opção pessoal de estilo de vida simples, mas uma opção comunitária contra tudo o que destrói as relações com Deus e com nossos irmãos. É um valor fundamental que preserva os demais valores da vida franciscano-capuchinha. É uma maneira de repudiar o sistema capitalista que funciona, constantemente, criando novos desejos para poder sobreviver. Sem a disciplina da austeridade, a solidariedade se converte em objeto de ofensa e destruição.

 A austeridade implica e supõe duas virtudes: a humildade e a caridade. Humildade, por começar reconhecendo que Deus é o Único sobre todas as coisas, Pleno e Supremo Bem, Único Bem, e que os homens são administradores dos bens recebidos, cuja administração deve redundar em bem para os demais, com especial atenção aos mais necessitados. Por isso supõe caridade.

 Hoje, a austeridade nos desafia a moderarmos nosso álibi de consumo, e o uso inescrupuloso de coisas supérfluas, que não sejam de estrita necessidade para nossa vida. A austeridade supõe simplicidade, que é irmã da justiça e mãe da solidariedade.

 O consumismo é o grande inimigo da austeridade; isso porque hoje em dia, o qualificamos de “nível de vida” ou “qualidade de vida”, e sempre aparece identificado com o título de “bem estar”. Hoje em dia, frequentemente encontramos pessoas, e entre elas muitos irmãos nossos que, infelizmente, tornaram-se tele-adictos e compulsivos, pessoas que tem um desejo irreprimível de adquirir coisas. Olhemos nossa última transferência: quantas coisas tínhamos e que as utilizávamos pouquíssimas vezes. Isso não nos sucedeu várias vezes, ao nos encher de coisas e sem saber para quê? A comercialização e a publicidade cancelam a distinção entre necessidade e supérfluo. A realização das necessidades e dos desejos se projeta ao infinito. O consumidor está teleguiado a ir além da sua própria satisfação e desejar uma série infinita de bens, produtos e serviços.

 Despertemos nosso senso crítico diante da propaganda e, nos imponhamos contra ela, que está nos arrastando a um consumismo insaciável que arruína nossa vida, nos distancia da pobreza e, com o perigo de enaltecê-la contraditoriamente com milhares de discursos. E, com isso, nos distanciarmos da realidade comum de nossos povos. Essa realidade, hoje, exige de nós um acompanhamento pessoal e, de modo especial, não exclusivo, à formação inicial.

Já estamos em clima de festas natalinas. Os grandes centros comerciais de nossas cidades já estão bombardeando as compras. Nessa época se tocam músicas natalinas, tanto nos grandes centros comerciais como em nossas igrejas. Hoje, não será que o Menino Deus nasce no centro comercial por que as portas dos nossos conventos se fecharam, ou ninguém ouviu quando soou a campainha, ou por que não havia nenhum frade em casa?

 Os anúncios, as luzes e as propagandas das infinitas coisas que podemos comprar para o Natal, podem fazer que facilmente nossa imaginação se perca em sonhos, e esqueçamos o principal do Natal: que o Filho de Deus vem até nós na austeridade de um presépio.

 Que esta ocasião seja para nós um convite Natalino:

 Se a fraternidade ou Província conta com bons meios econômicos, que vivam sem ostentação e com austeridade; e continuem contribuindo generosamente com a Província e com a solidariedade.

 As fraternidades que têm o necessário façam da necessidade uma virtude, vivendo serenamente a austeridade, sem angústias e nem ambições desmedidas, colaborando solidariamente com os que têm menos.

 As fraternidades que têm, não caiam na amargura, nem alimentem a ânsia de possuir bens materiais, mais ao contrário, eduquem os desejos e as necessidades, e não neguem nenhum esforço solidário para melhorar esperançadamente a situação.

 E a todos nós fica o convite para vivermos o Advento de modo reflexivo, orante e cheio de fraterna caridade, como eficaz preocupação para o nascimento do Menino Jesus.

 A austeridade nos leva a partilhar não aquilo que nos sobra, nem aquilo que se merece por justiça, mas o que posso partilhar por amor e caridade.

 Uma olhada à Província Nossa Senhora do Carmo.

 Uma urgente chamada de atenção para prestarmos especial atenção à manutenção das nossas casas, conventos e igrejas. Herdamos grandes construções materiais, e muitas delas patrimônio cultural e arquitetônico. Se nossos irmãos foram capazes de construí-los, nós ao menos, devemos ser capazes de mantê-los com decoro. Existem construções que estão mal cuidadas ou ameaçando arruinar-se.

 É função do guardião e do ecônomo, porém a todos deve preocupar estar atentos no que diz respeito à manutenção das coisas. Assim como devemos estar atentos à prevenção de enfermidades, seguros do controle de nossa saúde física e espiritual, da mesma forma devemos nos preocupar pelo carro da casa, para que funcione bem e não soframos acidentes.     

 Lembremo-nos o que diz o VI CPO: “Cada Província responda às necessidades dos irmãos e dos ministérios, na medida do próprio meio de cultura do povo. O princípio de solidariedade exige que nenhuma Província tenha o direito de pedir a outra, o que pode prover-se com os trabalhos dos irmãos e a esmola do povo” (24c.d).    

 A austeridade se manifesta na atitude prudente e equilibrada do provincial, do guardião e dos ecônomos com absoluta transparência, o que diz respeito ao manuseio do dinheiro, que não só devem administrar com honradez e sem nenhum gênero de despilfarro, mas com eficaz aplicação ao bem estar e o progresso da Província, olhando sempre para o futuro.

As fraternidades trabalham sem pressuposto, e por isso, ao fechar o ano contábil terminam em déficit, isso deve ser, no mínimo, um caso extraordinário; por isso mesmo devem trabalhar com pressupostos. O pressuposto constitui um elemento chave na vida fraterna, o que nos permite viver o voto de pobreza e poder atender nossos compromissos fraternos, pastorais, trabalhistas e fiscais. O pressuposto nos ensinará como gastar.

 Para que o pressuposto cumpra o seu objetivo de ajudar a nossa vida fraterna, ajudado por nosso voto de pobreza deve cumprir três princípios fundamentais: preparação, com a participação de todos os irmãos; aprovação, junto à autoridade competente; e o cumprimento do mesmo por parte da fraternidade. Dessa forma o pressuposto será sinal de responsabilidade e modo específico de viver a pobreza.

 Os últimos Conselhos Plenários da Ordem e as orientações dos Ministros Gerais exortam-nos a Centralizar a Economia através de um bom sistema contábil. É verdade que isto requer esforço e muita dedicação, porém, uma vez superada a etapa de sistematização, o trabalho se suaviza, e o que é mais importante, criam-se bases de comunhão provincial sólidas. Algumas Províncias vossas, hoje em dia, se parecem mais a uma federação de casas, paróquias, colégios e obras sociais autônomas, do que uma rede de fraternidades; e não colaboram efetivamente com os compromissos econômicos da Província, alimentando a divisão entre fraternidades ricas e fraternidades pobres. A economia centralizada ajudará a reforçar os laços fraternos, a comunhão de vida e a realização do tecido provincial. O VI CPO nos diz: “As circunscrições elaborem modelos apropriados e estudem a oportunidade de uma administração econômica centralizada” (33).

 A base de uma organização fraterna é o Manual de Economia Provincial. Este passo é urgente e, por isso mesmo, todos devem se empenhar  em sua elaboração e aprovação; e devem fazer logo, com a participação de todos os irmãos. É o momento de dar uma especial atenção à organização econômica e criar fortes laços de fraternidade, comunhão e solidariedade provincial.

 Se vocês me dizem que esse é um assunto de especialistas, lhes digo que não; em um Manual se escrevem as decisões da Província: a contribuição das fraternidades à vida da Província, quanto dinheiro um frade poderá dispor para as suas férias, quais procedimentos devem ser feitos na hora de comprar um carro, como proceder ante as reformas da casa, acordos sobre planos de saúde, meios para viagens. O mais recomendável é aprová-lo em uma assembléia e por um curto período de tempo. Assim, se completará à medida em fordes vos acostumando com o seu manejo.

 É urgente criar um patrimônio provincial, alimentá-lo e cuidá-lo; isso lhes permitirá atender melhor aos irmãos anciãos e enfermos, cuidar da formação dos novos candidatos, da formação permanente e profissional dos irmãos, manter as casas e contar com recursos necessários para as atividades sociais, pastorais e evangelizadoras.

 Há que pensar em um Plano de Desenvolvimento Provincial: sustentável e integral. Estamos construindo muito sem pensar nos futuros gastos com manutenção e, em nosso caso, com um agravante, que quando queremos sair de nossas casas temos entregá-las de mão beijada, sem receber nenhum centavo sequer, porque são igrejas e conventos que não podem ser vendidos, a não ser entregá-los ao Bispo.

 O número 72 das nossas Constituições nos fala, de nomear uma comissão provincial de assuntos econômicos, e a experiência nos ensina que hoje em dia é muito difícil para um provincial, e para a Província toda, não contar com a ajuda de uma Comissão, na qual deve estar algum leigo competente.

              Obrigado.

                                                            Frei Luís Eduardo Rubiano

                                          Secretário da Solidariedade e Ecônomo Geral.

 ECONOMIA – ADMINISTRAÇÃO – FRATERNIDADE

Fr. Luís Eduardo Rubiano  

INTRODUÇÃO 

Agradeço ao Definidor geral, Frei José Gislon e ao Provincial, Frei José Rodrigues, o convite para partilhar o meu trabalho na cúria geral e para estar presente neste encontro provincial. Meus parabéns: vocês enveredaram por um caminho certo e seguro. Este é o primeiro passo para uma nova cultura econômica provincial que com certeza dará muitos frutos.

A administração na Igreja é a confluência de todos os seus recursos em vista da sua missão.

Dois perigos da administração: ser muito técnico, ao ponto de não deixar espaço ao Espírito ou ser um místico que trabalha sem plano. Esta última atitude engendra confusão, fazendo gastar tempo e recursos, assim que a nossa missão na Igreja vai ser menos eficaz.

A administração e a economia estão a serviço da província e da sua missão.

É interessante observar como a reflexão sobre a economia foi sendo inserida nos últimos anos na vida religiosa. Em 1998 os Capuchinhos celebram o VI Conselho Plenário da Ordem: “Viver a Pobreza em Fraternidade”; sucessivamente os Superiores Gerais enfrentaram esta temática na assembléia ordinária de 2002: “Economia e Missão na Vida Consagrada, Hoje” e o Capitulo Geral passado falou expressamente de economia fraterna.

A pobreza é uma opção pessoal, mas não somente individual, é sobretudo uma opção da fraternidade. Assim, devemos ler em paralelo dois textos: o de Jo 3 (Nicodemos) e o de Mc 10 (o jovem rico). A pergunta: Bom Mestre, o que devo fazer para entrar na vida eterna? (Mc) Deve vender tudo e distribuí-lo aos pobres. Isto não tão fácil; para fazer isso é preciso nascer de novo (Jo) (deixando sobretudo a mentalidade da posse e da autonomia). Depois, vem e segue-me: é o convite para uma relação pessoal com Jesus, mas na comunidade dos discípulos. Jesus de rico que era, fez-se pobre por nós, para que vós vos tornásseis ricos por meio de sua pobreza (2Cor 8,9). Estas são as pegadas de Jesus que nós queremos seguir.

Diante de Jesus, lembra-nos São Paulo, qualquer outro bem perde sua força sedutora: “mas essas coisas, que eram ganhos para mim, considerei-as prejuízo por causa de Cristo. Mais que isso, julgo que tudo é prejuízo diante deste bem supremo que é o conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor. Por causa dele, perdi tudo e considero tudo como lixo, a fim de ganhar Cristo” (Fl 3, 7-8). Jesus é o bem absoluto a pérola preciosa e de grande valor que torna relativo qualquer outro bem deste mundo (Mt 13, 46). Este caminho deve ser percorrido em fraternidade até que se ache o verdadeiro e único tesouro (Mt 13, 44).

Devemos lembrar as nossas raízes franciscanas ao falar da economia ou da pobreza. São Francisco olha e contempla na Encarnação e na Crucificação o ato supremo de Jesus, o qual não retém nada para si mesmo, mas se doa totalmente. Da contemplação desse ato supremo de amor podemos deduzir:

  1. Reconhecer que todo o bem que há em nós e que se realiza em torno de nós é dom de Deus. Portanto, temos de devolvê-lo a Ele, pois é o proprietário.
  2. Nada pertence a nós senão os vícios e os pecados (RnB 17, 7).

Nós capuchinhos fizemos nossa a expressão “economia fraterna”, surgida das reflexões que se seguiram ao VI Conselho Plenário. Este termo é o resultado da reflexão fraterna e dinâmica. A escolha de economia fraterna foi feita no VII Conselho Plenário da Ordem (N. 6) e ratificada pelo Capitulo Geral passado com a seguinte proposição: “Apraz ao Capítulo pedir ao Ministro Geral e seu Definitório e a todos os Ministros que levem ao conhecimento de todos os frades, a partir da formação inicial, o espírito e as exigências da economia fraterna como propostos pelos CPOs VI e VII e pelos últimos documentos da Ordem”. 

A economia fraterna é muito mais que um simples sistema de contabilidade ou de fraterna partilha dos recursos em caixa; é a nova relação com o dinheiro para construir a fraternidade. A economia fraterna se fundamenta no fato de que somos todos irmãos, é uma ajuda para as nossas relações e, ao mesmo tempo, deve ser o resultado da nossa opção de vida. A economia é a expressão do coração da fraternidade.

O objetivo central de uma economia fraterna é aumentar a comunhão entre as pessoas. Os meios para alcançá-lo são a solidariedade e a mútua dependência, a participação e a proteção aos mais fracos. Estes princípios da economia fraterna mudarão profundamente a nossa atitude em relação aos bens da terra, ao trabalho, aos pobres, como também em relação à administração. Isto, por sua vez, transformará as relações entre nós e entre os povos da terra. A economia fraterna nunca tomará o lugar nem derrubará a economia global, mas fará da nossa Ordem uma casa e uma escola da comunhão (Carta 20, 5.2). 

Muhammed Yunus, prêmio Nobel pela Paz 2006, acreditou na economia solidária e desenvolveu um novo sistema financeiro; criou o banco Grameen Bank, para os pobres, aparentemente dois termos que se opõem entre si: banco – pobres.

Para representar a economia fraterna a imagem melhor pode ser aquela de um canal ou de um rio: um canal de irrigação. Para representar a economia de mercado podemos usar a figura de um Poço sem fundo: o mar, onde todos os rios desembocam no mar.

Se a finalidade da economia fraterna é o crescimento da comunhão e a proteção do diálogo, as decisões e as responsabilidades são partilhadas da maneira mais ampla possível. Por isso é necessário seguir os seguintes princípios administrativos:

1. A transparência: Corpo que deixa a luz passar, luminoso, límpido, sem lados obscuros. Não esconde nada na informação. A transparência constrói a confiança, a qual, por sua vez, favorece a comunhão. A transparência garante a honestidade, a responsabilidade e os critérios éticos na administração. Constitui uma forte crítica contra a corrupção, a desonestidade e a manipulação nos vários níveis da sociedade. 

A vida fraterna exige transparência também nas administrações locais, provinciais e da Ordem. Esta transparência começa em cada irmão, continua na fraternidade e tem sua complementação na Província” (VI CPO 30).

2. A participação: As decisões e as responsabilidades são partilhadas da maneira mais ampla possível. Para nós Capuchinhos são os Capítulos locais, as Assembléias, os Capítulos provinciais os momentos privilegiados para viver o princípio da participação. 

“Quando o objetivo da administração é a conservação da riqueza, as decisões econômicas são estritamente controladas pelo número mais exíguo possível de pessoas. Quando, ao contrário, o objetivo da administração é a comunhão, as decisões e as responsabilidades são partilhadas da maneira mais ampla possível” (Carta 17, 7.3). A participação dará lugar a uma reestruturação da administração das províncias e das fraternidades locais. 

Neste campo adquire especial importância a figura do guardião. Também neste campo seu papel é ser animador a fim de orientar a Fraternidade para que encarne os valores próprios da economia fraterna.

3. A eqüidade: Exige que a Província tenha a capacidade de responder às necessidades de cada frade e dos ministérios na medida dos próprios contextos de cultura e de povo. Não requer que se estabeleça um modelo universal e idêntico de capuchinho, mas tenciona assegurar uma resposta correta em harmonia com as diversas e variadas necessidades de cada irmão e das fraternidades. Não há comunhão lá onde subsistem privilégios (VI CPO 24, c). A eqüidade requer que a economia fraterna ponha a disposição tudo aquilo que é necessário segundo as diversas necessidades de cada irmão. 

4. A solidariedade: “Não é sentimento de vaga compaixão ou de superficial enternecimento pelos males de tantas pessoas, vizinhas ou distantes. A solidariedade, ao contrário, faz com que algo aconteça, porque diz respeito a escolhas que brotam da determinação firme e perseverante de comprometer-se com o bem comum. O estado de ânimo que dá origem a tal determinação é a consciência de que todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos”. (‘Sollicitudo Rei Socialis’ 38). A solidariedade é interdependência recíproca e fraterna. A solidariedade é uma cultura que gera novos modos de compreender e de viver as relações com os outros. Não há solidariedade autêntica sem amor.

A multiplicação dos pães e dos peixes é um milagre de solidariedade (Mc 6, 37; Jo 6, 9): Há aqui um menino que tem cinco pães...). Para São Francisco a partilha dos bens vai além da obrigação jurídica e entra na esfera do amor recíproco (RB 6, 8). A solidariedade enriquece não só aquele que a recebe, mas também aquele que a oferece (cf. 2Cor 9, 11-12). As nossas obras de desenvolvimento e de transformação social deveriam constituir na sociedade uma realidade de economia fraterna. Os milagres de Deus iniciam lá onde a generosidade humana chega ao limite! A generosidade humana é um milagre da graça.

5. A austeridade: é algo mais do que um valor ascético: ela media entre solidariedade e eqüidade. O uso dos modernos meios da tecnologia varia grandemente no mundo. Pensem nos meios que se tornaram comuns e necessários na nossa vida durante os últimos dez anos: celular, internet, computador e muitos outros aparelhos eletrônicos. A possibilidade de aceder aos modernos meios da tecnologia é uma das maiores causas de desigualdade no nosso mundo. A eqüidade requer que a economia fraterna partilhe os recursos entre os frades e as fraternidades. Num mundo progressivamente sempre mais controlado pela proliferação do desejo, uma economia sem austeridade não deixa nada para a solidariedade. A comercialização e a publicidade cancelam a distinção entre necessidade e supérfluo. A realização das necessidades e dos desejos se projeta ao infinito. O consumidor vem sendo educado para que vá além da própria satisfação e deseje uma série infinita de bens, de produtos e de serviços. A eqüidade sem a austeridade não deixa nada para a solidariedade. A austeridade é elemento constitutivo de uma economia fraterna. (Carta 24, 6.2).

6. A co-responsabilidade: A economia fraterna é a resposta franciscana ao desejo de contribuir para a mudança do mundo a partir da visão do Evangelho. Portanto, é tarefa de cada frade e de todos os membros da fraternidade salvaguardar esses princípios. Esse tipo de administração promove o bem-estar dos frades, da fraternidade e favorece a realização da missão da Província; todos nós somos responsáveis por vigiar para a salvaguarda e para a correta administração do nosso patrimônio.

A nossa espiritualidade é uma espiritualidade de comunhão e esta espiritualidade deve permear todos os aspectos da vida fraterna. Assim há de ser especialmente a nossa administração econômica, a qual não pode ser outra coisa senão uma administração econômica fraterna.

A economia fraterna transformará a vida de todos e fará dos nossos conventos uma verdadeira escola de economia solidária. Viver entre nós um modelo de solidariedade que garanta a segurança a cada frade, pode oferecer ao mundo um exemplo vivo de solidariedade.

                           ECONOMIA CENTRALIZADA

“As circunscrições elaborem modelos ou módulos apropriados e estudem a oportunidade de uma administração econômica centralizada a nível provincial”

VI CPO 33

 Já faz tempo que se julgou conveniente que não somente cada fraternidade tenha o seu próprio orçamento, mas que a Província tenha a sua economia centralizada; para isso é oportuno e de grande ajuda ter uma contabilidade consolidada. Isto comporta que se recolham todas as informações econômicas das fraternidades e que o Ministro provincial acompanhe não só uma casa em particular, e sim toda a atividade econômica da Província. É verdade que isto requer um grande esforço; mas só no começo; depois, mais adiante, poder-se-á entender as grandes vantagens.

 Lembremos, por exemplo, que o Capítulo Geral de 2000 pediu que a Cúria Geral tivesse não só a contabilidade da própria Cúria, mas também de todas as casas e instituições que dependem dela. Isto foi feito; agora a Cúria Geral Capuchinha possui uma economia centralizada e uma contabilidade consolidada.

Frei Eduardo Rubiano

Página Inicial Imprimir Voltar Topo
 
 
» Galeria de Fotos

Estudo

II Assembléia Provincial

Missa

Primeiro Dia

Segundo Dia

Último dia de Assembléia

© 2007 - promapa.org.br - Todos os direitos reservados