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Frei João Pedro

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Missionárias capuchinhas no Maranhão

 
Fundação da IMC
 

Fundador da  Congregação  das  Irmãs   Missionárias Capuchinhas do Brasil

 “A santificação vossa e a salvação de tantas almas que viviam nas trevas do erro e da ignorância, eis o motivo porque Deus vos chamou a este sacro recinto e vos deu a coragem de professardes esta vida austera, rigorosa e penitente” (Carta Pastoral nº 14 - 29/11/1906).

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o início de sua vida missionária, como desobrigante, Frei João Pedro demarcava nossos sertões com ermidas e cruzeiros. No governo da Missão, tornou-se um construtor de conventos e colégios. Além disso, foi escolhido por Deus para realizar uma obra de maiores proporções, cuja finalidade ultrapassa o tempo e o espaço, em que foi alicerçada.

            Sim, a Providência Divina o predestinou para fundar a Congregação das Irmãs Missionárias Capuchinhas. E se o longo exercício do Superiorato identificou Frei João Pedro como Pai dos seus confrades, no início deste século, com sua morte, outros o substituíram. Entretanto, como Fundador, ele continuará, através das décadas e por toda parte aonde formos, a ser nosso Pai-Fundador. Nele buscaremos sempre a inspiração primeira de nosso carisma, ou seja, de nossa espiritualidade de nossa Missão na Igreja.

  A Missão necessitava de Religiosas.

 A origem da Congregação das Irmãs Missionárias Capuchinhas remonta ao ano de 1899, quando em Alto Alegre, Barra do Corda, interior do Maranhão, estabeleceram-se as Irmãs Capuchinhas de Gênova, para educar cristãmente de modo especial as pobres meninas selvagens, que habitavam aquelas florestas (Relatório de Dom Roberto Castellanza á Santa Sé de 04/02/1920).

           O Massacre não destruiu apenas a Colônia Indígena, em Alto Alegre, como inviabilizou vários projetos. Frei Carlos, por exemplo, desejara trazer outras Irmãs de Madre Rubatto para Santo Antônio do Prata; entretanto, como as primeiras Irmãs foram martirizadas e ele ficou inválido, devido a uma amnésia total, em conseqüência daquele episódio.

            Em 1903, a ação missionária dos Capuchinhos, na Colônia Indígena de Santo Antônio do Prata, chegara a um impasse: a falta de cumprimento de suas obrigações por governo tornava impossível a continuidade daquela obra. Além disso, silenciosamente, era movida uma forte oposição à atuação dos Frades. Frei João Pedro sabendo de tudo, por ocasião de uma visita do Governador Augusto Montenegro ao Prata, na presença de toda a comitiva, fez afirmações como esta:

 “Aqui viemos para trabalhar e desenvolver nossa Missão, em nome de Deus, e para o bem do próximo; temos transformado esta floresta em uma florescente Colônia, iniciando a catequese dos índios; entretanto, ninguém poderá constranger-nos a permanecer, aqui, se não pudemos realizar os objetivos de nossa Missão. Partiremos como viemos, somente com o Breviário, e iremos lá onde nos seja possível concretizar nosso dever evangélico” (Citado pelo historiador Palma Muniz em “O Instituto Santo Antônio do Prata” páginas 59 ss.).

              Então, o Governador Augusto Montenegro reafirmou a grande admiração, já expressa por ele e demais visitantes, pela atuação dos Missionários, naquela Colônia Agrícola, prometendo dar pleno apoio àquela obra e saldando, prontamente, seus débitos. Determinou a elaboração de um novo Contrato, que foi assinado por ele e por Frei João Pedro e liberou as subvenções necessárias para a construção do Colégio Feminino, sob a responsabilidade dos Frades. A 4a.Cláusula desse Contrato determinava que o Superior da Missão, no prazo de um ano, conseguisse religiosas educadoras para aquela Escola.

A Fundação da Congregação em Belém

 “O homem sábio e prudente edifica sua casa sobre uma rocha imbatível.” (Cf. Mt 7, 24).

 Logo que possível Frei João Pedro partiu à procura de um Instituto Franciscano que aceitasse aquela obra educacional. Ao regressar, tudo indicava que obtivera pleno êxito, no Rio de Janeiro, junto à Madre Provincial das Irmãs Franciscanas do Sagrado Coração de Jesus, que se comprometera a enviar quatro religiosas, logo que a construção do colégio estivesse concluída. Estes, porém, eram projetos humanos; outros, os desígnios de Deus. Assim, no momento em que as Irmãs eram aguardadas, em Belém, “motivos superiores” impediram sua vinda, ocasionando um grave contratempo e desgosto.

            Frei João Pedro, particularmente, sentiu-se desolado; seu pensamento, então, voltava-se para a Colônia: lá ele via o bonito prédio, com amplas salas, claras e arejadas, a espera de religiosas para acolher e educar as crianças... Mas, agora, onde encontrá-las?

            Sua inteireza moral e a fidelidade à palavra dada não lhe permitiam escusar-se da cláusula do contrato que obrigava a Missão a conseguir religiosas para o colégio feminino do Prata, em um prazo já prestes a extinguir-se... E, apesar de tudo, confiantemente, repetia sua máxima predileta: “Deus proverá!”.

            Bem unido aos confrades, intensificava as orações, fazendo noites de vigília, à espera de um sinal de Deus, que tudo permite para o bem daqueles que O amam (cf. Rom. 8, 28). E eis que, em meio àquela nuvem de perplexidades e incertezas, brilha uma tênue luz, cujos raios se intensificam, até clarificar a questão: os missionários lembram, um grupo de fervorosas terceárias franciscanas, que, em Canindé, muito colaboravam com missionários capuchinhos, na catequese paroquial. Algumas delas desejavam ingressar em um instituto religioso franciscano, o que, às vezes, lhe parecia algo muito remoto...

            - Por que não iniciar, com aquelas vocacionadas, um instituto Religioso, que atendesse às necessidades da Missão? Foi esta a sugestão indagativa de Frei Daniel de Samarate, diretor da Colônia do Prata. Mas, para Frei João Pedro, a partir de então, as dúvidas começaram a mesclar-se com receio de assumir mais uma grave responsabilidade, pois, bem sabia o peso de tal ônus.

            Certa manhã, após uma vigília de oração, Frei Mansueto surpreendeu-o com esta exclamação:

 “Frei João Pedro é vontade de Deus que fundeis a Congregação. Cumpri esta vontade e o Senhor a abençoará!”.

             O Superior, em sua habitual atitude de abertura, percebeu nestas palavras, pronunciadas com tanta convicção, aquela resposta que todos aguardavam: Deus queria que ele fundasse uma nova Congregação Franciscana! Tranqüilo, deu início às tratativas necessárias, a começar por uma consulta às candidatas, porém, deixando-as plenamente livres para discenir o caminho a ser palmilhado.

            Tranquilamente, na oração, elas buscaram captar a vontade de Deus e, depois disso, cinco delas mostraram-se decididas a aceitar o desafio, reconhecendo que aquele convite era uma resposta de Deus ás suas aspirações mais profundas. Com os olhos da Fé percebiam que era a Mão Divina que as estava conduzindo! e levaram a Frei Matias a decisão tomada.

Então, sem perda de tempo, prepararam-se para seguir rumo ao desconhecido que, para elas seria a “Terra da Promissão”. E, partiram, confiantes naquele que as chamava e, também, em seus mediadores, os Missionários Capuchinhos.

            Na manhã do dia 14 de dezembro de 1904, um motivo especial fez Frei João Pedro dirigir-se ao porto de Belém. Em seus planos, ali ele deveria receber quatro Irmãs de votos perpétuos, destinadas à Missão pela Superiora Provincial da Congregação das Irmãs Franciscanas do Sagrado Coração de Jesus. Entretanto, o Senhor da História, traçara um projeto bem diferente: e ali se encontrava para receber cinco candidatas à Vida Religiosa, que deveriam ser plasmadas na espiritualidade capuchinha, aqui, na Missão e para a Missão.

            Tal contratempo de início pareceu amargo e doloroso, porém, pouco depois, Frei João Pedro e seus discretos reconheceram, também nisso, quão profundas são as riquezas da Sabedoria e da Ciência de Deus, quão incompreensíveis seus juízos e imperscrutáveis seus caminhos (cf. Rom. 11, 33).

            A recepção foi marcada pela alegria e mútua confiança, numa atitude de filial acolhida ao desígnio divino. O Fundador as conduziu ao “Recanto Saudoso” (primitiva residência dos capuchinhos). Aqui, elas mesmas confeccionaram suas novas vestes; e, na oração e no trabalho silencioso, se prepararam, espiritualmente, para um momento singular: a “Vestição Religiosa” que ocorreu na tarde do dia 18 de dezembro de 1904, na Capelinha de Nossa Senhora Auxiliadora. Foi assim, na singeleza franciscana, que aquelas cinco sertanejas tornaram-se as pedras fundamentais de uma nova Congregação Capuchinha. E, precisamente, ali, à semelhança do que fizera São Francisco, junto ao altar de Nossa Senhora dos Anjos, na Porciúncula, Frei João Pedro as revestiu com o burel da penitência. Conforme suas palavras, ali estavam cinco “novas” Claras, desejosas de seguir mais de perto, o Cristo Pobre, Humilde e Obediente, disposta a servir aos irmãos.

            Completando a cerimônia, Frei João Pedro deu a cada uma delas um nome novo, e, seguindo a tradição dos Capuchinhos, acrescentou, como sobrenome “Maria” e a designação do lugar de origem, a saber:

Francisca Barbosa Magalhães - Irmã Isabel Maria de Canindé

Maria de Nazaré Santos Lessa - Ir.Madalena Maria de Canindé

Cecília de Paula Pimenta - Irmã Verônica Maria de Canindé

Ana Xavier Macambira - Irmã Clara Maria de Canindé

Maria Barbosa Cordeiro - Irmã Inês Maria de Santa Quitéria.

             Após um encontro com o Fundador, que paternalmente, lhes deu alguns conselhos e orientações práticas, teve lugar uma ceia de confraternização, onde Frei João Pedro mostrava-se o mais feliz dos comensais; como Superior Maior dos Frades e das Irmãs, ele era, verdadeiramente, o Pai da Família, ali reunida, selando um pacto fraterno entre a Província Capuchinha e a pequena Congregação que estava sendo fundada. E desejável que esta Aliança perdure sempre, fortalecendo-se, todas as vezes que se faça a memória deste fato.

  As Imãs seguem para a Colônia de Sto. Antonio do Prata.

 “De vós, queridas Filhas, esperamos grandes coisas! De vós, também depende, em grande parte, a honra e glória de nossa Missão.” (Carta Pastoral nº 23 – 21/04/1913).

             Na manhã seguinte, dia dezenove, o grupo das Co-Fundadoras, acompanhadas por Frei João Pedro e Frei Daniel, seguiu para o campo de apostolado que a Providencia lhes preparara. Da estação ferroviária de Belém, viajaram até Igarapé-Açu. Aqui, o Fundador foi procurado por uma vocacionada, Delmira Xavier Nobre, que lhe implorou ser admitida na Congregação. Ele, após examinar, atentamente, suas disposições interiores, a recebeu: era a primeira postulante Missionária Capuchinha, que quarenta e cinco dias depois, seria admitida ao noviciado, integrando o grupo das Co-Fundadoras, com o nome de Irmã Margarida Maria de Martins.

            De Igarapé-Açu, prosseguiram viagem de cabriolé, chegando ao Prata, no final da tarde, quando foram recepcionadas pelos alunos, colonos brancos e indígenas e por moradores dos arredores. Na Capelinha, o Fundador fez a apresentação das Irmãs, seguindo-se a reza do Terço. Canto do “Te Deum” e Bênção solene do Santíssimo Sacramento. Já era noite, quando penetraram no amplo e bonito edifício do Colégio – a Casa Mãe do Instituto das Irmãs Missionárias Capuchinhas.

Casa Mãe do Instituto das Irmãs Missionárias Capuchinhas

            As Irmãs assumiram, desde então múltiplas tarefas, sem que houvesse descuido, quanto à sua formação religiosa. Frei João Pedro, com grande desvelo, providenciava tudo que era necessário à formação das Irmãs, desde a sábia escolha do Mestre de noviças, até projetos de novas fraternidades. A presença e o interesse dele pela Congregação jamais foram esquecidos por aquelas que tiveram a dita de conhecê-lo. E muitas vezes, em seus escritos, ele dirigia às Irmãs, palavras de estímulo e de exortação, incutindo-lhes a piedade, o amor fraterno, a prática da pobreza:

 “A Santificação vossa e a salvação de tantas almas, que viviam nas trevas do erro e da ignorância, eis o motivo porque Deus vos chamou a este sacro recinto e vos deu a coragem de professares esta vida austera, rigorosa e penitente. Mas, sabei que, não é aos que principiam, mas aos que continuam e perseveram na prática do bem que Deus prometeu o seu Galardão” (Carta Pastoral nº14 – 29/11/1906).

 “De vós, esperamos grandes coisas... E isto verificar-se-á, certamente, se reinar sempre entre vós aquele espírito e amor à santa Pobreza que Sta. Clara e Sta. Verônica tanto recomendaram às suas filhas; se praticardes a caridade fraternal, com tal e tanta perfeição que cada uma zele e procure mais honra e a comodidade das outras de que as próprias; se a humildade, própria de uma filha de São Francisco, transparecer e se mostrar evidente, em todas as vossas palavras, obras e comportamento; se a vossa obediência, como a Regra e as constituições mandam, for cega e sem limite” (Carta Pastoral nº 23 – 21/04/1913).

            A confiança do Fundador não foi desmerecida pelas Co-Fundadoras, em momento algum: elas, olhando para os exemplos que ele lhes dava de fidelidade e abnegação, muito ajudaram a perseverar, no seguimento do Cristo, até o fim, sem jamais olhar para trás.

Aproximadamente, um mês após (23/01/1905), aconteceu a solene inauguração do Instituto Feminino do Prata, contando com a presença do Dr. Augusto Montenegro – Governador do Estado e do Mons. João Francisco de Andrade Munis – Administrador do Bispado, além de outras autoridades civis e religiosas.

            Toda a comitiva oficial ficou maravilhada com a beleza do edifício; e, hoje, quando vistamos o Prata, percebemos que, ali, outros prédios, igualmente sólidos, desapareceram, sob a força do tempo coligada com o descaso que se vota ao Patrimônio Público; entretanto, nossa Casa-Mãe ali está, assinalando para os pósteros aquela página nova da civilização paraense, que, sem dúvida, abriu nova perspectivas para a evangelização, como sonhara Frei Carlos, o Fundador da Missão.

O ano Canônico e as Primeiras Profissões.

            Fundando um Instituto Religioso, Frei João Pedro assumia mais uma grave responsabilidade, na Igreja: prover a formação religiosa de seus membros. Dotado de grande sensibilidade aos valores evangélicos e de uma clara visão da importância da formação, ele percebia, nitidamente, que seria impossível a necessária firmeza aos membros de uma Congregação nascente, sem um sólido fundamento, que os sustentasse, na oração, no amor fraterno e no elã apostólico. A experiência multissecular demonstra que, em grande parte, a perseverança dos religiosos, na fidelidade aos Conselhos evangélicos, depende de uma sólida formação, na fase inicial, como nos admoesta o Divino Mestre. Se a casa for construída sobre essa rocha, poderão cair as chuvas, irromperem as torrentes e soprar os ventos, ela permanecerá firme (cf. Mt. 7, 25).

            Vejamos o deslanche do Processo Formativo das Co-Fundadoras, seguindo seus primeiros passos. Uma semana após a fundação, Frei João Pedro foi ao Prata, a fim de celebrar a Missa do Natal, inaugurando a capela do Colégio; a partir daquela noite, o Santíssimo Sacramento ficou no sacrário e, diariamente, um Capuchinho ia celebrar a santa Missa.

            O Fundador valeu-se do diálogo com seus discretos, na escolha do Mestre das Noviças e a indicação recaiu sobre Frei Davi da Desenzano, um grande missionário, que durante os últimos anos, orientava as Co-Fundadoras, na paróquia de Canindé. Havendo sido chamado, no dia trinta de dezembro, assumiu a orientação do Noviciado e a direção espiritual das formandas.

            Com profunda sabedoria e segurança, Frei Davi desvelou-se no desempenho de sua nova e singular tarefa. Zelosamente, o servo de Deus acompanhava o processo de formação das Irmãs. Todos reconhecem haver sido providencial a escolha do Mestre; entretanto, ele permaneceu poucos meses, à frente do Noviciado, pois havendo sido concluída a construção do Convento de Belém, Frei Davi foi nomeado seu primeiro Superior, deixando o Prata, no dia 27 abril de 1905.

            Logo, na manhã seguinte, Frei Silvério de Calvairate assumiu o cargo de mestre, junto as oito formandas, pois, naquele primeiro trimestre, haviam chegado mais duas vocacionadas ao Prata. Em seus “Manuscritos”, Frei Marcelino faz referência a esta nomeação:

 “Não poderia cair sobre pessoa mais idônea a feliz escolha. De fato, Frei Silvério parece talhado para o difícil mister de guiar e formar, pelas sendas espinhosas da perfeição religiosa, as almas que se consagram a Deus. Dotado, como era, de forte cultura mística, ascética e agiográfica, possuía, além disso, um retidão e uma imparcialidade de espírito, unidas a uma inteligência penetrante e acolhedora” (página 180).

             O Padre Mestre era mais moço que as primeiras noviças, pois, ainda não completara vinte e oito anos, em 1905, quando Frei João Pedro o nomeou para este cargo, no qual se distinguiu por seu austero ascetismo, que se refletiu, profundamente, no espírito de abnegação de nossas preceptoras. E, agora, quando a Congregação já celebrou seu primeiro centenário, constata-se que mudaram os tempos e outras são as exigências apostólicas, todavia, na Congregação, perdura a solidez dos alicerces, lançados em seus primórdios.

Para toda a Missão, o noviciado do Prata, sem a menor dúvida, constituiu-se uma risonha esperança; e o bom Deus, benignamente, quis levar a cabo aquela obra que Ele mesmo começara (cf. Fil 1, 6). Uma prova disso está no fato de que, não obstante o rigor da observância regular, acrescido com o peso dos múltiplos encargos assumidos, todas as Co-Fundadoras, inclusive Irmã Margarida, perseveraram e foram admitidas à profissão dos conselhos evangélicos, no Domingo de Ramos de 1906 (08/04).

Esta cerimônia aconteceu, na Capela do Instituto, Frei João Pedro e a fraternidade dos Capuchinhos estavam radiantes de alegria. E, feliz, todo o povo saudava o Fundador pelo bom êxito da nova Congregação, cujos primeiros frutos ali estavam, como um valioso legado para a Missão e para a Igreja.

            Com a alma em festa, todos se congratularam, com Frei João Pedro, no final daquela celebração inesquecível. Felicitado e aplaudido, humildemente, ele atribuía tudo ao Bom Deus, de quem recebera força e intrepidez para se deixar conduzir pela estrela da Fé, através do caminho estreito no abandono confiante.

Na história da Missão, aquele dia era um divisor de águas, pois assinalava dois períodos: um pré e um pós à presença das Irmãs, na Colônia do Prata, e, paulatinamente, em outras frentes missionárias: Ourém, Barra do Corda, Canindé, Anil, Grajaú, Turiaçu, Imperatriz, Carolina...

  Primeiros Ensaios de Autonomia.

 “A santificação vossa e a salvação de tantas almas que viviam nas trevas do erro e da ignorância, eis o motivo porque Deus vos chamou a este sacro recinto e vos deu a coragem de professardes esta vida austero rigorosa e penitente” (Carta Pastoral nº 14  29/11/1906).

            Com as primeiras “Professas”, uma nova etapa teve início na Congregação, pois, elas estavam aptas para assumir novas atribuições e encargos. Naquele mesmo dia (08/04/1906), aconteceu o primeiro Capítulo das Irmãs, presidido pelo Superior Fundador e contando com a presença de Frei Silvério, tendo como objetivo especial estruturar, a Fraternidade, começando com a eleição da Superiora e da Vigária, sendo eleitas as Irmãs Inês e Clara, respectivamente.

            Após as eleições, confirmadas por Frei João Pedro, todas foram à Capela e, diante do Santíssimo Sacramento, prestaram obediência à neo-Superiora. Também sobre ela recaiu a escolha para Mestra de Noviças, ficando a Fraternidade, assim, constituída:

- Irmã Inês – Superiora e Mestra.

- Irmã Clara – Vigária Local;

- Irmã Madalena – Conversa;

- Irmã Francisca – Noviça;

- Irmã Verônica – Corista;

- Irmã Isabel – Corista;

- Irmã Margarida – Conversa;

- Irmã Teresa – Noviça;

- Irmã Catarina – Noviça;

- Irmã Ângela – Noviça.

          Como Superiora e Mestra, a partir de então, coube a Frei Silvério o papel de “bússola” – sempre a indicar a rota certa, zelando pela fidelidade ao Carisma do Fundador. Permaneceu no Prata, junto às Irmãs, orientando-as através de palestras, conferências, retiros e direção espiritual. E sua influencia na formação das Noviças perdurou durante várias décadas, pois a obediência sempre o transferia para perto do Noviciado das Irmãs Capuchinhas, em São Luís e Fortaleza.

 Expansão da Congregação.

 “As Irmãs são suficientemente instruídas, muito boas e devotas; para elas não há dificuldades, nem de clima, nem de língua, nem de costumes. São. totalmente nossas, educadas conforme as nossas necessidades...” (Carta ao Ministro Provincial – 28.01.05).

              No mesmo trimestre em que professaram as primeiras Irmãs, Frei João Pedro foi nomeado para um novo triênio, como Superior Regular da Missão Capuchinha (1906 – 1909), período este assinalado por um notável impulso missionário, em direção das populações indígenas e das comunidades cristãs desassistidas espiritualmente. A meta final seria a evangelização do Alto Amazonas, segundo o projeto de Frei Carlos de San Martinho de Olearo, Fundador da Missão:

Ida para Ourém – Com o apoio do Governo, os missionários conseguiram criar outros colégios, como eficaz meio de evangelização. Com este objetivo, fizeram algumas incursões e bastou a Frei João Pedro saber que a Vila de Ourém ficava bem próximo de duas aldeias indígenas, que sua população era pobre e há muitos anos, não contava com assistência religiosa, para que ele a elegesse para a sede do novo instituto a ser criado. A vila dista cerca de 240 Km de Belém e está situada à margem direita do rio Guamá.

              Feita esta escolha, quanto ao local, todas as providências necessárias foram tomadas, rapidamente: a Diocese confiava àquela Paróquia aos Capuchinhos.

               Frei João Pedro conduziu para Ourém, dois missionários que, logo, iniciaram a matrícula dos alunos e o funcionamento das aulas, em pequenas casas alugadas, em uma das quais foram alojados os alunos internos. Segundo os critérios do Governador, deviam ser acolhidos alunos e alunas indígenas, filhos de presidiários e pequenos mendicantes ou vadios.

 Capuchinhos evangelizando na floresta

                 No dia 21 de dezembro, chegava a Ourém, um grupo de Irmãs, a fim de assumirem a educação das alunas. O povo acolheu as irmãs festivamente, fazendo-lhe uma calorosa manifestação, expressando alegria e carinho. Uma outra festa aconteceu, em fins de abril, quando o governador foi a Ourém inaugurar, oficialmente, as duas escolas, sob a sábia direção de Frei Lourenço de Alcântara, a primeira vocação Capuchinha Maranhense.

Para além da fronteiras paraenses – Frei João Pedro projetara a ida das Irmãs para Barra do Corda que foi concretizado, em 1910, por determinação do Visitador Frei Camilo de Albino, Ministro Provincial Lombardia.

Frei Estevão, Superior da Missão, assim começava sua carta, às Irmãs:

 “Eis, finalmente chegado o tempo em que as Irmãs que, pela Obediência, foram destinadas a Barra do Corda, têm de cumprir a ordem, como a voz de Deus”.

             Formadas na escola da submissão religiosa, as Irmãs designadas puseram-se a caminho, sendo acompanhadas, paternalmente, pelo Fundador no trajeto Belém – São Luís. Dali foram acompanhadas por Frei Lourenço de Alcântara que, diariamente, celebrava a Eucaristia, no Vapor, durante a semana em que estiveram embarcados.

            Em Barra do Corda, primeiramente, ocuparam-se as Irmãs na organização da casa, reservando uma parte para a comunidade religiosa e a outra para as alunas. A inauguração do Educandário São José da Providencia aconteceu no dia 12 de maio de 1910.

  Irmãs Capuchinhas em Canindé – Tendo como objetivo assistir às crianças órfãs e pobres desse município e assumir uma pequena escola, até então dirigida por uma leiga, Frei João Pedro fundou o Orfanato “Santa Clara”. A maioria das internas, ali acolhidas provinha da Serra de Baturité e não traziam consigo o mínimo necessário para uso pessoal, sendo a obra mantida totalmente, com as esmolas do Cofre do Santuário São Francisco das Chagas.

             O primeiro grupo de Irmãs chegou a Canindé no dia 27 de fevereiro de 1913, sendo a primeira superiora Irmã Escolástica Maria.

 As Irmãs Capuchinhas no Bairro Anil – Em dezembro de 1912, o governo da Missão decidiu fundar o Educandário Santa Cruz, no Anil (São Luís). A Missão adquiriu uma grande casa encravada num vasto terreno, bem junto à Igreja Paroquial. O objetivo desse Educandário naquele subúrbio populoso de São Luís era a evangelização das jovens em um momento de forte assédio de seitas protestantes. A inauguração oficial do Educandário Santa Cruz aconteceu no dia 11 de maio de 1913; e logo depois, para lá foi transferido o noviciado da Congregação, visto que aos Capuchinhos já estava confiado o serviço religioso do bairro, facilitando assim, o acesso das candidatas, em sua maioria procedentes do Ceará e Maranhão.

 Orfanato “Santa Luzia” em São Luís – Obra de cunho humanitário, havia sido fundada por dona Luzia Joaquina Bruce, no centro da capital maranhense, em 09 de janeiro de 1913. O asilo orfanológico Santa Luzia, destinava-se a amparar meninas órfãs de pai e mãe. Meses após a inauguração, estava na iminência de ser assumido por uma direção protestante; entretanto, naqueles dias Frei João Pedro encontrava-se em São Luís e a ele foi exposto o problema. Em seu zelo apostólico, confiante na Providencia, o Fundador prontificou-se a conseguir Irmãs para aquela Instituição tão prioritária, dada à pobreza daquelas crianças e o perigo que corriam, quanto à sua formação religiosa.

            Em agosto de 1913, as Irmãs assumiram a direção daquele Orfanato, que foi a terceira obra a elas confiadas pelo Fundador naquele ano. Em 05 de dezembro de 1913, ele faleceu; e durante vários anos não houve nenhuma outra fundação.

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