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FREI MACAPUNA, UMA VOCAÇÃO MISSIONÁRIA!
“Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura!” (Mc 16,15)
Essa consigna está gravada no meu ser religioso-sacerdotal. Aí, encontram-se as motivações mais profundas que norteiam o meu ministério. Aliás, motivações que me colocam sempre no caminho da Missão: “Ide... e pregai o evangelho a toda criatura!” Eu me identifico sobremaneira com essa proposta de Jesus...
Gênesis da minha vocação missionária!
A minha iniciação cristã se deu na minha paróquia de origem, Salinópolis; cidade praiana da costa atlântica do Pará. Naquela época, Salinópolis era assistida pastoralmente pelos frades Capuchinhos lombardos, cuja característica peculiar era a Missão; afinal, essa fora a motivação fundante que os trouxe a esses rincões amazônicos. Os frades que eu conheci naquela época, eram missionários em seu modo de ser e de fazer. Os termos: missão e missionários eram como que doces em suas bocas; e de fato o eram, pois, seu fazer pastoral testemunhava a favor deles. Os conheci zelos do modelo pastoral da época: diariamente viajavam para o interior, de jipe ou de canoa, com chuva ou com sol, assistindo as comunidades dos campos ou das praias. As tardes, geralmente, eram dedicadas à cidade: visitas às escolas, ocupações pessoais e inspeção das obras de construção da Maternidade São Camilo e da Igreja de São Pedro. Naquele tempo não se falava de atendimento ao povo durante o dia, mas à noite, antes e depois da Missa. Tempos imemoráveis! Os frades estavam sempre presentes nas atividades das crianças e dos jovens.
Os Capuchinhos da minha infância!
Verdadeiramente missionários! Realmente frades do povo; homens pobres, abnegados, sacrificados, austeros, trabalhadores, apóstolos incansáveis. Ei-los, portanto, guardados na minha eterna galeria: Frei Camilo de Piamborno, frei Apolinário de Brescia, frei Hermes de Spirano, frei Leônidas de Torre Baldone, frei Tranqüilino de Sovere, frei José de Castanhal e frei Eliézer de Morazzone, meu promotor vocacional. Logo em seguida a esse tempo de fervor espiritual e ardor apostólico, no auge dos meus 17 anos, entrei na Ordem. Fui acolhido na Fraternidade de Primavera; aí, encontrei dois frades que, daquele momento em diante passariam a fazer parte da galeria dos meus imortais: frei Arcádio Benzoni e frei Emanuel Turpeti. Frei Arcádio era um frade apostólico, todos os dias estava no interior, sempre acompanhado do seu retro projetor e do gravador a pilhas para ensinar cânticos litúrgicos ao povo.
Frei Emanuel Turpeti, mestre dos aspirantes, sempre repetia-nos o refrão “somos missionários”.
E dizia que todo domingo nos levaria para a Missa em Quatipuru, para que aprendêssemos a ser frades missionários. E, de fato, no pouco tempo de sua vida terrena que viveu conosco sempre nos levou consigo, inclusive na viagem que o levou para o céu.
A sobriedade desses Capuchinhos me encantou!
Homens trabalhadores. Em Salinas e Primavera, onde as entradas eram poucas, cultivavam frutos e vendiam para as soverterias em Belém; além do coco, maracujá, murici e araçá, cultivavam pimenta do reino. Eu os via, sempre à tarde cuidando dos cultivos. Esse foi o modelo de missionário que eu conheci e me apaixonei.
Período da formação inicial!
Os planos de Deus, realmente são insondáveis! Após a morte prematura do jovem frei Emanuel Turpeti, eu e meus companheiros fomos trasladados para o Seminário Seráfico de Barra do Corda, no Maranhão. Frei Arcádio nos acompanhou! Saímos de São Luís-MA às 18 horas e chegamos em Barra do Corda às 4 da manhã, empoeirados e abismados pela novidade. Ao tocar a porta veio nos atender um frade cuja barba venerável me prendeu a atenção; era frei João Franco Frambi, diretor daquela casa religiosa. Em Barra do Corda como em toda a Prelazia de Grajaú, respirava-se uma atmosfera missionária: frades empenhados na evangelização, toyotas que iam e vinham marcados pela lama do inverno ou da “puaca” no verão, testemunhando o amor e o sacrifício dos missionários da Prelazia; os frades que passavam pelo Seminário relatando suas histórias de atoleiros e experiências de dias nas estradas com carros quebrados, à espera de socorro; tudo me falava dessa vida missionária difícil e desafiadora. O meu coração vibrava quando chegavam frei André e frei Amadeu, vindos de Alto Alegre montados naquele “mondrongo de guerra”. Vê-los assim era fenomenal!
Em 1978, foi o período do meu postulantado, no Anil, e conosco estavam três frades que os coloco na minha eterna galeria: frei Pascoal Rota, frei Dante Gallerini e frei Simeão Bertulessi. Nesse ano a Ordem toda estava voltada para Mattli onde de celebrava o III CPO, sobre o tema: “Vida e atividade missionária!” O tema da Missão estava em dia! A nossa formação era conduzida para a Missão. Nós estudamos e praticamos o III CPO. Nesse ano fizemos experiências missionárias nas comunidades periféricas da Paróquia do Anil; toda segunda feira, nos encontrávamos, para avaliar nossa ação missionária.
A partir desse momento ficou claro para mim, que Mattli me desafiava a não me contentar em ser Missionário Capuchinho, mas Capuchinho Missionário; isto é, agir como missionário. Também me ensinou que missão é um dom, e não uma obrigação. E, como é a primeira impressão a que fica esta foi a que me marcou e formou a minha identidade de Capuchinho Missionário. Em outras palavras, Mattli foi fundamental na formação da minha consciência missionária.
Essa experiência foi enriquecida e aprofundada durante os anos do pós-noviciado em Belém; a ação pastoral dos estudantes junto aos grupos e movimentos da nossa paróquia de São Francisco foi uma “verdadeira revolução”. Não se pode negar que, naquela época, a presença pastoral dos Estudantes deu um novo vigor evangelizador e missionário à Paróquia de São Francisco. Em 1983, éramos 32 Estudantes inseridos nas pastorais da Paróquia, o que não deixou de ser também, um trampolim para aqueles que queriam se lançar de corpo e alma na Missão. Esse período foi aquecido pelo calor do ardor apostólico; aos sábados à noite nos encontrávamos na cozinha, ao redor da panela de sopa, para partilhar alegrias e dores, acertos e desacertos, sucessos e insucessos das nossas jornadas. Que belo tempo de amor e paixão pelo Reino!
Primeiro Envio!
No dia seguinte à minha ordenação presbiteral, eu fui enviado para a fraternidade de Capanema, no Pará, com a responsabilidade de cuidar do Seminário Seráfico. Grande responsabilidade! Mas, por outro lado, eu tive a Graça de encontrar aí os meus “velhos missionários” que outrora conhecera em Salinas. Com eles tive a minha primeira experiência de vida fraterna; inesquecível! Eles, aos poucos foram me introduzindo no ritmo exigente da pastoral paroquial; aos domingos somente duas missas, uma pela manhã e outra à tarde. Missa à noite nem pensar.
Por outro lado, valeu o conselho do velho patriarca, frei Hermes: “não tenha pressa de fazer muitas coisas; você é um padre jovem; aproveita para continuar estudando enquanto nós ainda podemos trabalhar!” Bendito seja Deus pelas sábias palavras do meu velho guru. Esse incentivo não me fez perder o gosto pela leitura, estudo, pesquisa, aprofundamento; graças a esse sábio conselho, hoje, exerço um fecundo apostolado através da pastoral extraordinária da Pregação, Retiros, Novenários, Assessorias, Missões Populares. Mas, é preciso dizer que, apesar dessa orientação pastoral, nossos jovens aspirantes eram formados para a Missão; todos estavam engajados na Catequese infantil e juvenil nas Comunidades. E isso era feito num clima de fervor apostólico e ardor missionário.
A minha primeira fraternidade depois da ordenação, reunia todas as segundas feiras um seleto grupo de Missionários, outrora “operários do Senhor” no Ceará, Piauí, Maranhão e Abaetetuba. Ei-los: frei Camilo Michelli, frei Mário Falcetti, frei Hermes Recanati, frei Arcádio Benzoni, frei Leônidas Vavassori, frei Casar Gavazzi, frei João Paulo Renoldi, frei Narno Galli e frei Tomé Cortinovis. Uma belíssima galeria de Missionários! Como não beber na fonte da Missão, convivendo com essa gente que consumiu a vida a serviço da Missão? Eles muito contribuíram para o discernimento da minha vocação missionária além fronteiras!
Buscas, inquietações e descobertas!
Nesse itinerário de consolidação da minha entrega à Missão, li e reli três livros que me marcaram profundamente: “O rio Tapajós, os Capuchinhos e os índios mundurucus”, de frei Rogério Beltrami; “Os Capuchinhos no Norte do Brasil”, de frei Metódio de Nembro; “O Diário de um Missionário”, de Padre Júlio Maria de Lombaerd. Confesso que desde que li esses livros nunca mais os abandonei. Este compêndio tecido de múltiplas e diversas experiências missionárias é como que, alguém me dizendo que a Missão é uma realidade; antes uma necessidade, e que vale a pena gastar a vida por ela. Nesse sentido, esse tipo de literatura serve para alimentar esperanças, criar perspectivas, abrir horizontes, propor alternativas, quebrar paradigmas.
Nota importantíssima! Em 1976, ano em que eu entrava na Ordem, o Papa Paulo VI dirigindo-se ao Capítulo Geral da Ordem, disse: “Um requisito que me parece fundamental para a vossa eficaz obra de evangelização poderia formular-se assim: prioridade do ser em relação ao fazer! A evangelização requer testemunho, e o testemunho supõe a experiência que brota de uma profunda vida de união interior com Cristo, levando o discípulo a uma progressiva semelhança com o Mestre; a um ser com Ele e Nele. Isto transparece pouco a pouco, de forma convincente, até na forma externa de viver e trabalhar. Uma forma externa particularmente marcada pela pobreza de Cristo” (Paulo VI, 12/06/76).
“Na vanguarda do Evangelho!”
Isso mesmo! Assim nos queria o Papa Paulo VI: “Vós sois os da vanguarda do Evangelho. Disso fala o vosso hábito, proclama-o a vossa tradição, afirmam-no vossas obras. Por vezes, perguntais a vós mesmos, se estais em condições de fazer apostolado neste mundo moderno, tão diferente, tão rico em progresso, voltados para as realidades terrestres. E vós julgais-vos fenômenos especiais, espécie de anomalia. Porém, ficai sabendo que esta anomalia, esta singularidade que não está na moda, está verdadeiramente fundada no espírito do Evangelho e na tradição franciscana; não é um obstáculo, é um apelo” (Paulo VI, ao Definitório Geral, 20/02/1971).
Lembro-me que no silêncio crepuscular daquelas longínquas tardes de 1976, na conferência que fazia aos seminaristas nas quintas feiras, frei João Franco Frambi, enquanto falava-nos dessas coisas maravilhosas, o Espírito Santo instilava no meu ser o Dom da vocação missionária. Deo gratias!
Experiência Ad Gentes!
Cuba é o meu primeiro amor! Geralmente, quando se ama de verdade, ao amado lhe encanta tornar conhecida a sua amada. Permitam-me traçar o perfil geográfico e social desse amor que permanece entranhável no meu coração: Cuba, o amor que eu amei para sempre.
Mapa Geográfico de Cuba!
Cuba, a rainha das Antilhas do Caribe, está situada no golfo do México, entre as penínsulas de Yucatán e da Flórida, abaixo do Trópico de Câncer. Enquanto tamanho é pouco maior que Portugal ou Pernambuco, cuja superfície, conforme se ensina nas Escolas, é de 111.111 km². Geograficamente o mapa da Ilha tem o formato de um Crocodilo, medindo 1.250 km de comprimento e de largura não supera os 200 km. A orgulhosa Antilha caribenha, exibe 2.600 km de praias, enfeita o seu oriente com belas montanhas, no centro esnoba a beleza de suas exuberantes palmeiras imperiais e, no ocidente, guarda a preciosidade da sua natureza. No arquivo dos seus auto-motores, guarda para a inveja dos seus visitantes, 400 mil veículos das sucessivas décadas de 30, 40 e 50: Chevrolet Bel Air, Impala, Foord Victória, Oldmosble, Thounderb-ird, Buick, Chrysler, Playmouths, Fenemê, DKV-Vemagth, Gordini, Aero-Willis... Todos rodando.
João Paulo II ficou encantado quando a visitou em 1998: “Cheguei nesta entranhável Ilha, pequena e grande, distante e ao mesmo tempo próxima, pobre e por sua vez rica. Sua riqueza e sua grandeza estão em sua gloriosa história, em seu sol, em seus mares, suas palmeiras reais, seu céu azul, porém, estão sobre tudo na nobreza de seus filhos, os cubanos; marcados pela cultura do coração, que gerou um cubano amigável, afável, aberto! Que Cuba se abra ao mundo e o mundo se abra a Cuba”.
“Ecce adsum!” – Is. 58,9!
15 de fevereiro de 2005, às 11:00 pm, pisei o solo cubano. Nos meus planos eu fui para permanecer por tempo indefinido, embora a solicitação do Padre Geral fosse por dois anos e, a cada dois anos os missionários fossem substituindo-se rotativamente; porém os desígnios de Deus eram outros. Fiquei em Cuba dois anos, encarregado da pastoral vocacional e, ao mesmo tempo, auxiliando no processo formativo. Em Havana não temos paróquias, apenas dois Santuários, e de inexpressiva concorrência devido ao sistema político cubano que há cinqüenta anos proíbe a prática da fé. Mas, aos domingos, sempre era convidado por párocos camponeses para ajudá-los, pois haviam sacerdotes encarregados de duas, três e até quatro paróquias, por falta de padres. Experiência inesquecível: nada fácil chegar a essas paróquias; o transporte era o obstáculo mais freqüente. Dessa breve experiência missionária guardo com carinho no meu coração sacerdotal, as paróquias de Bejucal, Quibican e La Salud, que as assistia pastoralmente coadjuvando ao pároco Padre Troádio; pároco para todas três.
O povo cubano é muito semelhante ao brasileiro: a idiossincrasia, a diversidade das cores, raças, culturas e costumes. Hospitaleiro, acolhedor, alegre, festivo, brincalhão, barulhento. Mesmo apesar do controle da religião por parte do Estado, o cubano é muito religioso, popularmente falando. O Estado proibiu a prática da fé, mas não conseguiu destruir as raízes da fé do povo cubano. Foi por isso, exatamente, que o cubano não perdeu a fé durante o regime marxista em Cuba; a manteve ocultamente, quiçá alimentada na religiosidade popular, já que estava proibido praticá-la. Nesse sentido merecem ser sublinhadas as devoções nacionais que mais atraem o povo cubano: Nossa Senhora de La Caridad Del Cobre (Padroeira Nacional), São Lázaro, e Nossa Senhora das Mercês. o ptoralmenteassistia coadjuvando
Na realidade eclesial cubana não se fala, ou melhor, por força do próprio regime, não existem o que conhecemos como comunidades eclesiais; existem “Casas de Missão”. Estas reúnem um pequenino punhado de gente que vem atraída pelos Sacramentos: Eucaristia e Batismo. É como no tempo das comunidades primitivas quando a Igreja se reunia pelas casas. Aqui o desafio é encontrar alguém que ofereça a sua sala ou o seu quintal para que esse punhado de gente se reúna, pois a vizinhança em geral espiona o que acontece por aí e não vê com bons olhos o gesto dos seus vizinhos. Porém, aí se celebram as Missas todos os domingos e se administra o batismo, quando aparecem.
Também se costuma organizar um minúsculo núcleo de crianças para a catequese. Não se pode construir uma capela, por exemplo, porque o governo não permite. O jeito é dispor da bondade daqueles que viabilizam as “Casas de Missão”. E isso nem sempre é fácil, pois, se acontecer que os donos dessas casas, geralmente dissidentes, consigam sair do país, acaba-se as “Casas de Missão”.
Casa Missionária de Saquená!
No sábado, 20 de fevereiro de 2005, com frei Vicente fui ao bairro Saquená. Eu deveria celebrar e batizar, pois frei Vicente não é sacerdote. A Missa começou com um grupinho de senhoras idosas e crianças. Dentro de mim uma sombra de decepção ofuscava o meu ser, meus sonhos e esperanças. Porém, tomado por uma súbita força interior, rezei: “Meu Deus, não permita que o maligno semeie joio de desesperanças no meu coração!” Tenho a certeza de ter sido inspirado pelo Espírito Santo, porque, nesta mesma hora, uma alegria indizível invadiu o meu ser. Quando terminou a Missa, todos se aproximaram de mim para dar-me as boas vindas. Compreendi, na fé, que para Cuba me enviara o Senhor, e que lá, com aquela pouca gente, iniciaria o meu ministério missionário.
Regressando ao “Convento da Pastora” (Santa Clara), frei Vicente me dizia: “aqui os militares e os trabalhadores em geral, são proibidos de praticar a fé. Caso venham praticar a fé cometerão delito contra a Revolução e podem ser duramente disciplinados por isso”. E me perguntou: “Tu entendeste porque aquele menino que batizastes foi apresentado pela avó? É porque os pais (ele militar, e ela trabalhadora da saúde) não podem praticar a fé; estão proibidos”.
Nesse contexto encaixa-se o fato de que, anos atrás, um dos nossos missionários, o norte-americano frei Patrick Sullivan, teve o visto cassado e foi expulso do país porque, simplesmente, distribuiu na Igreja, panfletos alusivos à liberdade. Isso foi para mim como um polivitamínico B12. Comecei a empolgar-me com os sucessivos desafios; estes não intimidam, pelo contrário, tornam-me intrépido e audaz missionário.
Atenção! O que direi a seguir provoca muita dor no meu coração, mas direi com toda sinceridade da minha alma, para o bem da verdade, dos meus sonhos e projetos missionários. Fui à Cuba para ficar por tempo indeterminado e, inclusive, eu estava disposto a morrer por lá; mas os desígnios de Deus foram outros. Embora eu não o compreenda e nem o aceite com os meus critérios e pontos de vista humanos, o acolho na fé. Foram dois anos de muitas bênçãos de Deus: conheci e me encarnei na dura realidade do povo cubano, com suas lutas e labutas para sobreviver sob as durezas do regime vigente; entrei em suas casas, escutei suas queixas, ouvi seus clamores, compartilhei suas angústias, dores, alegrias e tristezas. Essa foi a dinâmica missionária de Jesus.
No dia 19 de janeiro de 2008, recebi um e-mail de um cubano, dizendo-me: “Jose, si tú vieras como te extraña la comunidad. Hay personas que no te puedes imaginar y que te recuerdan y te extrañan, pues marcaste toda su vida com el simple hecho de uma bendición. Ahí tienes los frutos de tu gran bondad y de tu servicio a Dios em estas tierras”. A experiência missionária que vivi em Cuba me ensinou uma coisa: hoje, evangelização se faz na base do tu a tu, do corpo a corpo! Preguei, fiz conferências, dei palestras, e já estava me preparando para dar aulas no Instituto Laical, porém creio que a evangelização própria para o atual contexto de Cuba, é aquela do Bom Pastor.
Além disso, li e estudei a história de Cuba, desde a Colônia até o presente momento; fiz pesquisas no campo da espiritualidade, escrevi artigos, hagiografias, apontamentos pessoais, enfim, aproveitei o tempo que tinha para isso; fiz uma belíssima experiência de oração, não descurei o retiro mensal, o trabalho manual e os afazeres da casa. Isso fazia parte da nossa vida fraterna. O ponto alto disso tudo era a Eucaristia da Fraternidade todas as segundas feiras.
Aos sábados, durante as Laudes, preparávamos, juntos a homilia do Domingo; depois o resto da manhã era reservado para a faxina. Realmente o tempo que eu passei em Cuba foi uma verdadeira experiência de Deus. Não me arrependo! Só tenho que agradecer a Deus por seu amor gratuito. Fui acolhido sobremaneira pelos frades da Delegação, a quem faço um louvor ilibado: frei Gregório Alvarez, frei Fidêncio Rodrigues, frei Angel Gajate, frei Luís Chilán, frei Philip Cutajar, frei Raul Vassalo, frei Vicente Castel, e Sandy Caballero, o nosso único postulante (amostra grátis). Trata-se de um louvor solene como o Te Deum, para ecoar no coração de Deus, a sinceridade do meu agradecimento; e a eles todos a minha eterna gratidão. Nesse mesmo louvor, incluo dois co-irmãos da minha Província, os únicos que sempre mantiveram contato fiel comigo, enquanto eu estive em Cuba: frei Pedro Antonio Zanni e frei José de Arimatéia.
Enfim, se não pude ser missionário em Cuba, como era o meu desejo, o serei onde eu estiver; porém o meu coração continua em Cuba, e se algum dia aprouver à Divina Providência, não hesitarei voltar; afinal, eu deixei a “porteira” aberta. Eu sempre me guio por um provérbio popular muito sábio: “Por onde passares não feche o caminho, porque, se precisares voltar encontra-lo-ás aberto!” A esperança é a última que morre.

A ORIGEM - Sou frei João de Araújo Santiago. Conheço muito pouco sobre os meus avós paternos. Somente sei que criaram meu pai em Mamanguape (PB). Meu pai quando completou mais ou menos 17 anos migrou para Natal (RN) e aos 19 anos casou-se com minha mãe. Conheço um pouco mais a família materna. Cresci escutando, por parte de minha mãe, historias sobre as viagens feitas periodicamente pelo seu pai, juntamente com toda a família, rumo a Minas Gerais, precisamente na região de Ituiutaba. Estas viagens eram motivadas pela busca de boas estações para o plantio. A região nativa dos meus avós, o nordeste, é conhecida pela escassez das chuvas, daí que periodicamente precisavam migrar para Minas Gerais. E assim também meu pais logo após contraírem matrimonio passaram a viver em Minas aonde nasceram três irmãs minhas (Maria Madalena, Salete e Maria de Lourdes). Depois de quatro anos decidiram voltar para Natal porque para o meu pai o trabalho de lavoura era por demais “pesado”. E assim tornou-se comerciante. Depois destas três meninas nascidas, nasceram em Natal: Antonio, Maria das Dores, José Carlos, Maria do Socorro, João e Teresinha. Nasci aos 18 de abril de 1968 e vivi em Natal (cidade banhada pelo oceano Atlântico, ocupada por 25 anos pelos holandeses e que assistiu em suas proximidades o massacre dos primeiros mártires reconhecidos em terras brasileiras por parte dos protestantes) até aos oito anos de idade. Em 1976 chegamos a Belém do Pará. Meu pai já havia um ano viajava entre Manaus, Belém e Natal, comercializando “contrabando” e erva-doce. E assim, o Pará tornou-se o meu segundo Estado.
O NOME CAPUCHINHO - Em Belém cursei a segunda série no Bento XV, escola construída pelos frades capuchinhos e administrada pelo Estado. O nome “capuchinho” foi-se formando em minha memória por duas razoes: porque habitávamos no bairro do Guamá e a referencia logística maior naquela zona da cidade era a igreja dos capuchinhos; porque a escola Bento XV dividia seu muro com o convento, e nós pequeninos sabíamos que do outro lado havia um cão de raça “lobo” (pastor alemão) que pertencia aos frades de barba. Estudei neste ambiente somente dois anos, pois meu pai adquirira uma casa própria em outro bairro. E assim os capuchinhos tornariam-se novamente próximos a mim quase uma década depois.
A VOCAÇÃO - Cursei o segundo grau obtendo o diploma de técnico em Administração de Empresas na escola estadual Visconde de Souza Franco. Lembro bem: quase final do ano acadêmico de 1985. Na sala de aula conversávamos. O assunto passou para religião, e uma colega narrou a historia vocacional de um seu primo. Este vocacionado entrara entre os agostinianos, e durante o noviciado teria abandonado até mesmo a fé. Não dei atenção a este fato malogrado, mas com a imaginação fantástica de um jovem de 17 anos “viajei” no cenário descrito do noviciado: teria sido na Espanha, em uma região Arida e semi-deserta, com muito silencio, etc... Entao... no outro dia fui à paróquia dos agostinianos, porem não consegui falar com nenhum agostiniano. No retorno para apanhar o ônibus, reencontro um capuchinho com uma longa barba. Aproximei-se e perguntei: O senhor é padre? . “Sim!”, respondeu. “Eu também quero ser padre. O que devo fazer?”, vá falar com o guardiao do convento
E assim falara com frei João Franco Frambi e proximamente deveria conhecer frei Ângelo Falomi que por sua vez levou-me até o responsável pelas vocações em Belém do Pará, frei Deusivan. Freqüentei durante um ano o grupo vocacional. Éramos vinte jovens, dos quase somente um seguiu a vida religiosa, eu que escrevo. Fiz a minha profissão perpetua em 1993 e no ano seguinte fui ordenado sacerdote. Fiquei na casa do noviciado seis meses e recebi o convite do vice-provicial (frei Gentil Gianellini) para ser missionário em Moçambique.
AFRICA - Quando era estudante de teologia escrevi uma carta ao provincial da Lombardia apresentando a minha disposição de ir para o continente africano. Mas jamais recebi resposta. Desconheço o motivo. E assim esqueci este desejo. De repente, 1995, visita do Ministro Geral e um pedido da parte dele: um frade para Moçambique. Frei Aligi lembrou a frei Gentil que no passado tivera eu requerido de ir até a Africa. De fato, tinha sido frei Aligi a levar a carta-pedido para a Itália. E assim, disse “sim”, passei dois anos em Roma e segui para Maputo, capital de Moçambique no início de 1998. O meu serviço deveria ser bem preciso. Abrir a casa de formação de teologia. Eu como mestre dos estudantes, frei Leonardo Odorizzi como guardião, frei Bernado Maines como ecônomo e frei Gabriel com as suas pastorais. E assim em 1998 inauguramos a casa com a bençao do Cardeal e Arcebispo moçambicano. Vivi três anos em Moçambique. Alem de mestre dos estudantes, lecionei em dois seminários interdiocesanos disciplinas filosóficas e teológicas, lecionei também em uma escola privada e assiti a uma comunidade dedicada a S. Kisito. A minha estadia em solo africano foi muito proveitosa para mim. Conheci quase todas as fraternidades. Conheci e me confidenciei com o único frade sobrevivente do massacre de Inhansunge (no qual a guerrilha massacrou três frades). Participei de missas em lingua local e participei de rituais crisãos inesquecíveis. Realmente foi um mergulhar em um outro mundo humano, em um ritmo antigo e basilar. A presença dos capuchinhos no solo moçambicano somente poderá ser conhecido por quem possa morar entre eles e escutar as façanhas destes frades heróicos.Voltei ao Brasil em janeiro de 2001.
Poderia resumir a minha trajetória africana nestas linhas: abertura à dimensão da Ordem, para alem de um gueto provincial; recepção de experiências dos frades mais antigos que entraram em um mundo novo para eles e que lutaram para promover o homem seja através da cultura seja através da técnica e seja através da fé que tirar o medo natural do homem e o abre para a liberdade conquistada pelo poder do resuscitado; contato com os pobres; contado com um pais que teimava em ressurgir das cinzas deixadas pelos vinte anos de guerra civil.

Frei José Nilton Leandro da Costa “Vocação Capuchinha e Missionária”

Noticias de Cuba Date: Mon, 10 Mar 2008 08:36:52 -0300

Paz e bem.Olá caríssimo frei Fábio. Desde sexta nos mudaram para Cristo de Limpias, em La Habana velha. Estamos com frei Luis e um postulante, Sandy.Era uma antiga casa de uma senhora que cedeu aos frades para a evangelização, veio a revolução e ficou provisória até hoje. Quem passa na rua, não pensa que seja uma igreja. A casa é grande, mas mal distribuída e é ao lado de uma feira; é onde dizem ser o postulantado. No momento só está frei Nilton, Sandy e eu.

Frei Luis viajou para o interior. por enquanto tudo tranqüilo. Já celebramos neste domingo, é diferente de Jesus de Miramar, tem mais formato de comunidade, com grupos, OFS, catequese e uma boa participação na missa: umas 70 pessoas.




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